Não é tarefa fácil o trabalho de enxugar gelo, mesmo em baixas temperaturas como as que vivemos a poucos dias do inverno. Mas o ministro Nunes Marques, presidente do TSE, decidiu atender ao pedido do PL, o partido de Flávio Bolsonaro, e assumir a missão e proibir a veiculação do resultado da pesquisa Atlasintel que aponta queda expressiva do filho 01 depois de revelado sua relação de irmandade com o banqueiro Daniel Vorcaro.
A decisão, no entanto, soa mais como um tiro no pé. Ao atender o chororô do PL, ministro e a própria pré-campanha bolsonarista só conseguiram a façanha de jogar mais luz sobre os números. Tendência de queda que, vale ressaltar, também foi mapeada por outros institutos de pesquisa, embora com números diferentes.
O gelo que eles tentam enxugar é simples: o BolsoMaster tem cheiro, cara e “áudio” de grande escândalo da República. Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro eram próximos e os 134 milhões de reais prometidos para o filme “Dark Horse” são apenas o cartão de visitas daquilo que a delação premiada do banqueiro pode causar de estrago na campanha bolsonarista. Vorcaro entrou no modo “proteger a própria pele”, o que, nas contas da política, tem efeito de hecatombe.
Mas cabem algumas observações extras à decisão de Nunes Marques. Em primeiro lugar, ele fez uma manobra feia, porém não inédita, de nomear a si mesmo como juiz de propaganda, o que inclui a divulgação de pesquisas, dentro do TSE. Tradicionalmente, a tarefa é designada a ministros substitutos, uma espécie de juízes do banco de reserva que são escalados só para esta função.
Alexandre de Moraes havia criado, em 2022, o expediente ímpar de levar para a presidência do Tribunal a responsabilidade de fazer o pente fino nas propagandas e pesquisas. Mas Nunes Marques deu muito na cara. A ação do PL já havia sido distribuída para outra ministra da Corte, porém ele agiu rápido, editou a portaria interna ampliando suas atribuições e, mais veloz que um dark horse, levou para seu gabinete a decisão de julgar o pedido de Flávio Bolsonaro. Tamanha agilidade e presteza estaria de alguma forma amparada na gratidão por ter sido indicado por Jair Bolsonaro a uma vaga no Supremo?
Sobre a pesquisa, não há, a princípio, nada que a desabone. O centro da argumentação do Partido Liberal seria a exibição do áudio aos mais de 5 mil entrevistados durante o trabalho de campo. O que não procede, segundo o responsável pelo instituto. O áudio de Flávio Bolsonaro para Daniel Vorcaro só era mostrado depois de encerrado o questionário da pesquisa. Em tese, portanto, o áudio não contaminaria a votação. A Atlasintel errou porque não havia necessidade alguma de exibir o áudio. Mas seu vacilo não compromete o resultado.
Sabemos que a construção de um questionário pode influenciar resultados de pesquisa, mas o derretimento de Flávio Bolsonaro, caindo cerca de 6 pontos na disputa contra o presidente Lula, também foi identificado por outros institutos.
Nunes Marques aceitou o trabalho de enxugar gelo e, agora, também levou pra ele o holofote sobre as próximas pesquisas: o que fará o ministro indicado por Bolsonaro? Se o caso BolsoMaster já causou estragos significativos na opinião pública, o que esperar do TariFlávio e da polêmica de Trump com o Pix?
Ao ministro, um conselho: quem enxuga gelo dificilmente volta feliz pra casa. E ainda corre o risco de sair com as mãos queimadas e a toga encharcada.