Master
Rovena Rosa/Agência Brasil

O Ministério Público Federal (MPF) apontou a existência de um esquema de desvio de recursos do Banco Master que pode alcançar R$ 5,7 bilhões, segundo inquérito conduzido em São Paulo que veio a público após operação realizada nesta quarta-feira (15). A investigação indica que parte relevante dos recursos captados pelo banco foi direcionada a fundos de investimento exclusivos que, por sua vez, adquiriram títulos emitidos por empresas com vínculos societários ou pessoais com os próprios sócios da instituição financeira.

Entre as empresas citadas estão uma clínica médica e um hospital infantil localizados em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o MPF, essas entidades emitiram centenas de milhões de reais em notas comerciais sem garantias, adquiridas por fundos ligados ao Banco Master.

Fundos exclusivos e empresas ligadas aos sócios

De acordo com a apuração feita pela coluna na jornalista Natália Portinari, do UOL, o Banco Master direcionou recursos captados por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) a fundos de investimento dos quais era cotista único. Esses fundos passaram a adquirir títulos emitidos por empresas ligadas, direta ou indiretamente, a sócios do banco.

A Clínica Mais Médicos aparece como um dos exemplos centrais do esquema. A empresa emitiu R$ 361 milhões em notas comerciais apesar de ter capital social zerado e uma receita anual bruta de R$ 54 mil em 2023. Para o MPF, a relação entre dívida e faturamento revela uma alavancagem incompatível com qualquer parâmetro de viabilidade econômica.

A clínica é presidida por Valdenice Pantaleão, alvo de busca e apreensão na operação. Segundo a investigação, apesar de figurar como dirigente de uma empresa que captou milhões, ela não possui patrimônio e foi beneficiária do auxílio emergencial em 2020 e 2021, o que levou o MPF a classificá-la como interposta pessoa, utilizada como laranja no esquema.

Hospital infantil e padrão repetido

A Clínica Mais Médicos está ligada ao Hospital da Criança de São José, que também emitiu R$ 372 milhões em notas comerciais adquiridas por fundos ligados ao Banco Master. O MPF aponta que outras empresas vinculadas aos sócios do banco, como a Holding AF S.A. e a Simetria Planos de Saúde Eireli, reproduziram o mesmo padrão de emissão de títulos comprados pelos fundos exclusivos.

Dos mais de R$ 3,5 bilhões investidos pelo banco nesses fundos, cerca de R$ 1,8 bilhão teria sido direcionado à compra de notas emitidas por empresas relacionadas aos próprios controladores. Considerando operações correlatas, o MPF chegou ao valor total de R$ 5,7 bilhões, montante sobre o qual foram solicitados bloqueios judiciais.

Gestoras, lavagem de dinheiro e intermediários

A investigação também aponta a prática de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro por responsáveis por gestoras de fundos de investimento como Reag, Ruby Capital e Trustee DTVM. Com base em relatório do Banco Central, relatado pela Procuradoria-Geral da República (PGR), o MPF identificou que João Carlos Mansur, ex-dono da Reag, teria utilizado a gestora para desviar recursos do Banco Master.

Segundo os investigadores, filhos de Mansur também teriam sido usados como laranjas no esquema. Parte dos desvios teria passado por uma empresa chamada Brain Realty, que recebeu cerca de R$ 460 milhões em operações classificadas como falsos empréstimos. Esses valores foram posteriormente aplicados em papéis de baixa liquidez e valor fictício, incluindo títulos de um banco extinto em 2008.

A PGR apontou que, entre abril e maio de 2024, essas operações resultaram em um desembolso de R$ 1,45 bilhão pelo Banco Master, com retorno de R$ 1,38 bilhão por meio da aquisição de CDBs pelos fundos Astralo 95 e Reag Growth 95.

Outro elemento citado pelo MPF foi a identificação de uma transferência de R$ 9 milhões feita por um intermediário a Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Para os investigadores, a movimentação reforça os indícios de desvio de recursos.

O que dizem as defesas do caso Master

Após a operação, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o banqueiro tem colaborado com as autoridades e está à disposição para prestar esclarecimentos. A defesa de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, preso e liberado onte, quando tentava embarcar para Dubai, declarou que suas atividades são lícitas e que ele não possui relação com a gestão do Banco Master.

Em nota, a defesa de Nelson Tanure afirmou que ele não mantém relação societária com o banco e confia que a investigação demonstrará a inexistência de prática ilícita. O advogado de João Carlos Mansur informou que ainda não teve acesso integral aos autos, mas declarou que seu cliente está à disposição das autoridades.

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