
O dólar fechou em forte queda nesta terça-feira (5) e atingiu o menor patamar em mais de dois anos. A moeda americana encerrou o pregão vendida a R$ 4,912, com recuo de 1,12%, depois de cair durante toda a sessão e chegar a R$ 4,90 na mínima do dia. É o menor valor desde 26 de janeiro de 2024. No acumulado de 2026, a divisa já registra baixa de 10,51% frente ao real.
A queda do dólar ocorreu em um ambiente de maior apetite global por risco, mesmo com a continuidade das tensões no Oriente Médio. A manutenção de um cessar-fogo parcial entre Estados Unidos e Irã reduziu a aversão dos investidores e favoreceu moedas de países emergentes, entre elas o real. No Brasil, o movimento também foi reforçado pela expectativa de juros elevados por mais tempo, após a ata do Copom indicar cautela com os impactos inflacionários do cenário externo.
Por que o dólar caiu
A explicação passa por dois fatores principais e o primeiro é externo. Com a percepção de menor risco imediato no Oriente Médio, investidores voltaram a buscar ativos de países emergentes, que costumam oferecer retornos mais altos, mas também são mais sensíveis à instabilidade global. Nesse movimento, o real se destacou entre as moedas que mais ganharam força contra o dólar.
O segundo fator é doméstico. Mesmo depois do corte recente da Selic para 14,50% ao ano, o Brasil continua com uma das taxas de juros reais mais altas do mundo. Isso torna o país atraente para investidores estrangeiros, que trazem recursos para aproveitar o rendimento dos ativos brasileiros. Quando mais dólares entram no país, a oferta da moeda aumenta e a cotação tende a cair.
A ata do Copom reforçou essa leitura ao indicar que a guerra no Oriente Médio pode ter efeitos duradouros sobre inflação e expectativas. Na prática, o Banco Central sinalizou que o ciclo de queda dos juros seguirá condicionado aos dados e ao cenário internacional, o que levou o mercado a trabalhar com a possibilidade de uma redução mais lenta da Selic nos próximos meses.
Bolsa avança, mas com sinais mistos
A bolsa brasileira também fechou em alta. O Ibovespa subiu 0,62%, aos 186.753 pontos, recuperando parte das perdas da véspera. O avanço foi sustentado por melhora no ambiente externo e por resultados corporativos, com destaque para a Ambev, que liderou os ganhos do índice após divulgar números acima das expectativas do mercado.
O desempenho, no entanto, não foi homogêneo. Papéis ligados ao consumo ganharam força, favorecidos pela percepção de melhora no cenário de risco, enquanto ações de petroleiras foram pressionadas pela queda do petróleo no exterior. Petrobras recuou mais de 1%, acompanhando o movimento internacional da commodity.
A queda do petróleo também ajudou a reduzir parte do temor inflacionário global. O Brent para julho recuou 3,99%, a US$ 109,87 por barril, enquanto o WTI para junho caiu 3,90%, a US$ 102,27, segundo a Exame.
Inflação ainda limita o otimismo
Apesar da melhora no câmbio, o cenário econômico ainda exige cautela. O Boletim Focus mais recente mostrou que a projeção para o IPCA de 2026 subiu para 4,89%, na oitava alta consecutiva, ficando acima do teto da meta de inflação, de 4,5%. A expectativa para a Selic no fim de 2026 permaneceu em 13% ao ano.
Esse quadro ajuda a explicar por que a queda do dólar não significa, por si só, uma virada definitiva do cenário. Um real mais forte pode aliviar preços de importados, combustíveis e insumos, mas a inflação de serviços, alimentos e transportes ainda segue pressionada. Além disso, o mercado continua atento aos efeitos da guerra sobre petróleo, comércio global e expectativas de preços.
O que muda para a economia
A queda do dólar pode ter efeitos positivos no curto prazo. Ela ajuda a reduzir custos de produtos importados, viagens internacionais, insumos industriais e parte dos combustíveis. Também melhora a percepção externa sobre o Brasil e pode aliviar pressões inflacionárias, especialmente se o movimento se mantiver por mais tempo.
Mas há limites. O câmbio depende de fatores externos, como juros nos Estados Unidos, guerra no Oriente Médio e apetite global por risco. Também depende de fatores internos, como política fiscal, inflação e trajetória da Selic. Por isso, analistas tratam o recuo como relevante, mas ainda sujeito a reversões.
O fechamento desta terça-feira mostra um mercado mais favorável ao Brasil no curto prazo, com dólar em queda, bolsa em alta e entrada de capital estrangeiro. Ao mesmo tempo, revela que esse movimento está apoiado em uma combinação delicada: juros altos, cautela do Banco Central e expectativa de menor tensão global.