Nasci no Campo Limpo, na periferia da Zona Sul de São Paulo, e a política sempre fez parte do nosso dia a dia dentro de casa. Eu e meus irmãos crescemos tendo nossos pais como referência do que é ter lado na vida. Metalúrgicos e sindicalistas, foram perseguidos pela ditadura militar e lutaram, como tantos outros, pela volta da democracia e eleições livres nos anos 80. Com eles – e convivendo suas angústias e alegrias -, eu fui aprendendo os sentimentos que vem junto com a política. Dos amargos, como as derrotas de Lula, em 89 e 94, ou as greves reprimidas com violência e demissões sem justa causa, aos de esperança, como o impeachment de Collor e a vitória consagradora de Lula, em 2002. Foi assim que me tornei uma militante de esquerda, muito antes de conhecer e entrar para o MTST, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto.
Se dentro de casa eu aprendi sobre política, foi fora dela, nas ruas do bairro, que eu fui entendendo a sua razão de ser. O porquê da nossa luta. Quem mora na periferia sabe que a vida é remar contra a maré de segunda a domingo. Escolas precárias, ônibus lotados, enchentes rotineiras, armários quase sem comida, além da eterna sensação de insegurança, especialmente para as mulheres. Quando os problemas se acumulam, a esperança perde força. Pensar o futuro, seu e de seus filhos, se torna um luxo que a maioria não consegue ter.
Agora, nas eleições de outubro, nós temos alguns enormes desafios pela frente. E todos eles dizem respeito à razão de ser da política. O primeiro deles é a missão histórica de reeleger o presidente Lula e afastar, mais uma vez, o risco de a extrema direita voltar ao poder. Democracia e soberania nacional dependem da nossa vitória nas urnas. É isto que está em jogo nestas eleições.
Mas precisamos avançar e quebrar tabus que muitos preferem ignorar. Em 40 anos, desde a redemocratização, mulheres e negros nunca chegaram perto de ter, no Congresso, a representatividade que têm na sociedade. Nosso Congresso é historicamente formado por homens brancos, da elite, que refletem apenas seus próprios interesses. Passamos a ver como natural a formação de grupos que expressam essa desigualdade, como as bancadas do agro ou da bala.
Vejamos o caso das mulheres. Somos maioria na população, mas ocupamos menos de 20% das cadeiras na Câmara dos Deputados e no Senado. Isso quer dizer que, sozinhas, mesmo se unissem mulheres de todos os campos políticos, não há número suficiente para aprovar um projeto de lei sequer. Desproporcionalidade de representação e misoginia que nos ajudam a entender por que os casos de feminicídio crescem cada vez mais, mesmo diante de um Código Penal que prevê pena de até 40 anos para o crime.
As mulheres merecem mais segurança dentro e fora de casa, mas não só. Também precisam de mais qualidade de vida e mais oportunidades. Devemos investir nosso tempo na construção de políticas públicas eficazes para sanar a crônica jornada dupla ou tripla da maioria das mulheres, especialmente na periferia. As 24 horas do dia não são mais suficientes para tanta tarefa. Com o envelhecimento da população, são elas que, hoje, trabalham, cuidam da casa, dos filhos pequenos e dos pais idosos. E o futuro? E a realização de seus sonhos? É nosso dever também apresentar soluções para que as mulheres possam se inserir ou se qualificar no mercado de trabalho, seja num emprego formal ou empreendendo e abrindo seu próprio negócio.
Há, ainda, outra missão pela frente. Além de reeleger Lula, temos o desafio de garantir que o presidente tenha condições de governar. Ter força para aprovar as pautas do povo, como fim da escala 6×1, e, também, para defender os interesses do Brasil diante da ameaça que, hoje, Donald Trump representa para a geopolítica mundial e, em especial, para toda a América Latina.
A governabilidade exige mais equilíbrio de forças no Congresso Nacional, que nos últimos anos vem se comportando como o “Congresso inimigo do povo”. Os exemplos se repetem porque quem dá as cartas é o centrão em conluio com a extrema direita. Sem a força das ruas, fazendo pressão popular, a PEC da Bandidagem e a anistia a Bolsonaro e aos golpistas de 8 de Janeiro seriam, hoje, realidade. Deputados e senadores também não teriam aprovado o IR Zero, a principal vitória do presidente Lula nestes quatro anos.
É hora de mudar essa realidade no parlamento. Temos o dever de eleger a maior bancada de esquerda da história do Congresso. O presidente Lula precisa de pelo menos 180 deputados comprometidos com o seu governo – e com o povo. O desafio é grande. Desde 2010, o número de parlamentares do nosso campo vem caindo paulatinamente: de 179, na primeira vitória de Dilma, para 125, na eleição de Lula, em 2022. Na direção oposta, a direita e a extrema direita ocuparam o espaço. Enquanto nós não temos maioria simples em plenário, eles têm força para aprovar emendas na Constituição, além de propor e ter votos para processos de impeachment do presidente e de ministros do Supremo Tribunal Federal.
No Senado, a conta é a mesma – ou até mais perigosa. Com Bolsonaro na prisão e as dúvidas que pairam sobre a candidatura de Flávio, seu filho, o clã que lidera a extrema direita no Brasil aposta suas fichas em eleger o maior número possível de senadores. A ida de Carlos Bolsonaro para Santa Catarina é apenas um dos movimentos. Brasil afora, a família golpista vem construindo palanques fortes para a disputa, especialmente porque serão dois eleitos por estado neste ano. Na conta deles, ao menos um tem que ser alinhado a Bolsonaro.
Eles não têm força popular, como nós. Mas eles têm dinheiro. Sabemos que o orçamento secreto, criado por Bolsonaro, e a farra das emendas ajudam a explicar de onde vem o crescimento deles na última década. Nossa missão é equilibrar e virar o jogo. Eles têm dinheiro. Nós temos lado, o do povo. É isso que temos que mostrar daqui até outubro. É assim que vamos convencer o brasileiro a eleger a maior bancada de esquerda e o maior número de mulheres e negros e negras na história da nossa democracia.