A misoginia é uma forma de expressão violenta do machismo, enraizada no preconceito e ódio contra mulheres. Está presente em atitudes, práticas e estruturas que desvalorizam, inferiorizam ou hostilizam mulheres simplesmente por serem mulheres. Ela se manifesta de forma explícita, em discursos de ódio, violência e discriminação, mas também de maneira sutil, por meio de estereótipos, desigualdades naturalizadas e expectativas sociais que limitam a autonomia feminina. Trata-se de um fenômeno estrutural, sustentado por normas culturais e históricas que, há séculos, perpetuam a desigualdade de gênero.
Para falar desse tema, é necessário retomar o conceito de ‘interseccionalidade’, pois não existe uma “mulher universal”. As experiências femininas são diversas, atravessadas por múltiplas identidades que se cruzam e produzem formas específicas e, muitas vezes, sobrepostas de opressão e privilégio. Assim, embora a misoginia atinja todas as mulheres, ela se manifesta de maneiras distintas, com impactos desiguais.
Um exemplo dessas desigualdades aparece em pesquisa recente do Ministério da Justiça, que indica que 64% das vítimas de feminicídio são mulheres negras. Considerar essas múltiplas realidades é um dos principais desafios para a construção de políticas públicas eficazes de proteção e combate à misoginia.
É inegável que houve avanços importantes no último século, ainda que insuficientes. A partir de intensas mobilizações sociais e do amadurecimento do debate público, as mulheres conquistaram o direito ao voto, ampliaram sua participação no mercado de trabalho e passaram a ocupar, ainda que de forma desigual, espaços de liderança. A criação de leis específicas para combater a violência doméstica e o assédio também representa um marco relevante.
No entanto, o cenário atual revela que esses avanços coexistem com desafios persistentes e, em alguns casos, com retrocessos preocupantes. É o caso do aumento dos feminicídios, que atingem níveis alarmantes, seja em ambientes domésticos ou em espaços públicos – são mais de 13 mil vítimas na última década no Brasil. A desigualdade salarial, a sobrecarga e a invisibilidade do trabalho doméstico, além da sub-representação em posições de poder, também contribuem para a persistência desse cenário.
A isso se soma o ambiente digital, que potencializa discursos misóginos, muitas vezes sob o manto do anonimato, criando novas formas de agressão e silenciamento. É urgente avançar na regulamentação das plataformas digitais, de modo a ampliar sua responsabilidade na moderação de conteúdos de ódio. Discursos de ódio não podem ser confundidos com liberdade de expressão.
O enfrentamento desse quadro exige ações articuladas em múltiplas frentes. A educação é central para promover, desde cedo, valores de igualdade e respeito que rompam ciclos de discriminação. No mundo do trabalho, políticas de equidade, transparência salarial e combate ao assédio devem ser prioridade.
No campo institucional, é necessário fortalecer as leis existentes, garantir sua aplicação efetiva e ampliar os mecanismos de proteção às vítimas. O projeto de inclusão da misoginia como crime de preconceito, aprovado pelo Senado e atualmente em tramitação na Câmara, pode se tornar uma ferramenta importante para ampliar a proteção de meninas e mulheres.
Também se destaca o Pacto Nacional Contra o Feminicídio, lançado pelo governo federal. A iniciativa articula os três Poderes em ações integradas de políticas públicas, envolvendo estados e municípios no fortalecimento de uma rede de proteção, apoio e garantia de direitos das mulheres brasileiras.
Por fim, é indispensável envolver toda a sociedade nesse debate. Homens têm um papel relevante ao reconhecer privilégios, rever comportamentos e atuar como aliados na promoção da igualdade. Combater a misoginia não é apenas uma questão de justiça para as mulheres, mas uma condição necessária para a construção de uma sociedade mais justa, equilibrada e democrática para todas as pessoas.