Em sua obra, a psicanalista austríaca Melanie Klein apresenta uma teoria sobre o psiquismo humano nos primeiros meses de vida chamada “posição esquizoparanóide”. Nela, o bebê apresentaria um mecanismo de clivagem, ou seja, um efeito de tudo ou nada: ou a coisa é totalmente boa ou é totalmente má.
Se tudo correr bem a pessoa superaria parcialmente essa posição e começaria a perceber que um mesmo objeto pode ser ao mesmo tempo bom e mau, nascendo portanto a ambivalência. Em outras palavras, a criança inicialmente acredita que o seio que dá o leite é bom e o que o nega (quando a mãe não está ali no momento do choro) é mau. Mas, com o tempo, ela percebe que ambos os seios pertencem à mesma mãe, alguém portando bom e mau simultaneamente. O curioso é que esse passo evolutivo, segundo Klein, nem sempre é dado e a posição paranoide pode perdurar por muito mais tempo, até a vida adulta. Em alguns casos poderia acontecer inclusive uma superação, mas depois uma regressão à posição esquizoparanóide.
Não é tão difícil visualizarmos isso na prática. Tudo ao meu time do coração e morte ao torcedor da equipe rival. Uma pessoa que, enquanto na relação, é a melhor do mundo e, após a separação, torna-se a mais asquerosa, insuportável, egoísta. E, como não poderia faltar, o nosso velho e bom embate político entre direita e esquerda.
Considerando a teoria de Klein, impossível não pensar que o ressurgimento da extrema direita, não só no Brasil, nos jogou numa regressão à posição esquizoparanóide. Quem vota no outro partido só pode ser um imbecil, essa é a máxima. E, não por acaso, uma das características dessa posição, ainda segundo a autora, é angústia persecutória: o objeto mau está vindo aqui me pegar, eu vejo seus sinais em toda parte, eu sei que ele está à espreita. E está? Bem-vindo à paranoia.
Como esquecer os seguidores de Bolsonaro acusando o governo petista de ter manipulado as nuvens e tendo então sido responsável pelo raio que atingiu a manifestação erguida no fim da caminhada de Nikolas Ferreira. A manipulação das urnas, a vacina que transmutará todos em jacarés. Não faltam exemplos. E, da mesma maneira, a esquerda também se radicalizou e passou a ver todo aquele que não vota da mesma forma como um inimigo que merece ser destruído. As escalas de cinza desaparecem e tudo que resta é uma oposição marcada entre o que é totalmente positivo ante o que é totalmente negativo.
Sigmund Freud nos presentou, em sua segunda tópica, com a denominação das instâncias psíquicas entre ID, Ego e Superego. Sem aqui se prender em discorrer sobre cada um dos conceitos, vamos olhar para o Superego, esse herdeiro do complexo de Édipo, lugar onde repousam nossos valores, nossos imperativos, nossas proibições e ideais. Essa instância psíquica funciona como uma espécie de polícia dentro de nossa mente, dizendo o que é certo ou errado, e impondo regras mil sobre os nossos desejos. Em certas pessoas esse Superego é mais severo, em outras não, mas em todos atua. Nos diz a maneira certa de lavar as mãos, o jeito de se relacionar com o dinheiro, de falar com as pessoas. Para tudo há um imperativo “tem que ser assim para ser certo, se não for dessa maneira, está errado”. Tal senhor tão severo é, na teoria, contrabalanceado pelo Ego, que fica de mediador entre os desejos incessantes do ID e a censura do Superego.
Daí pensamos: hoje em dia, como anda esse equilíbrio? Diante de um Superego coletivo gigante, que impõe regras e punições a todos que se aventuram a desafiar suas leis, o diferente é o inimigo. Nosso Ego está atrofiado, em termos sociais, perante essa necessidade de dicotomia estranguladora. Ficamos marchando com os nossos e torcendo para, diante do outro, vencer a guerra. E quais as consequências disso? Se pode parecer difícil demais pensar em termos macropolíticos, vamos nos ater ao exemplo de um cidadão qualquer, comum, João, andando na rua com a mão no bolso. Para tudo João tem suas regras de aço. Só há um caminho certo para se dirigir até sua casa, só um modo de se vestir que é adequado, só uma escolha sexual digna. E o mundo vai se moldar às vontades de João? Não. Resultado, sofrimento psíquico. Cá estamos.