2026
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A eleição de 2026 começa a consolidar uma mudança que já vinha sendo ensaiada nos últimos ciclos eleitorais, mas que agora ganha escala e método: influenciadores digitais, ex-atletas, apresentadores e celebridades deixam de ser candidaturas pontuais e passam a ocupar posição estratégica na montagem de chapas, sobretudo nas disputas proporcionais. Não se trata apenas de nomes conhecidos disputando votos, mas de uma reorganização da lógica eleitoral, em que visibilidade, engajamento e alcance passam a funcionar como ativos políticos centrais.

Nomes como Gracyanne Barbosa, Rico Melquiades, Edmundo, Silvia Abravanel, Val Marchiori, Antônia Fontenelle, Manoel Gomes, Augusto Cury e Leão Lobo ajudam a desenhar esse cenário, cada um representando um tipo diferente de capital público convertido em projeto político.

Gracyanne Barbosa: corpo, disciplina como “narrativa política”

Ex-dançarina do grupo Tchakabum e uma das principais influenciadoras fitness do país, Gracyanne Barbosa construiu sua imagem pública a partir da disciplina física, da rotina rigorosa e de uma estética associada à performance e ao autocontrole. Ao ingressar no Republicanos, leva para a política um discurso que tende a dialogar com valores como mérito individual, autocuidado, empreendedorismo e superação, frequentemente presentes no universo fitness e no discurso conservador contemporâneo.

Sua candidatura se apoia menos em propostas detalhadas e mais na identificação com um estilo de vida aspiracional, que encontra forte ressonância nas redes sociais e em públicos urbanos conectados. Suas bandeiras incluem incentivo ao esporte, disciplina e saúde como eixos de atuação.

Rico Melquiades: linguagem direta e política como entretenimento

Rico Melquiades, influenciador digital e vencedor de “A Fazenda”, representa um modelo mais explícito de candidatura baseada na lógica das redes. Sua comunicação política mantém o tom informal, direto e muitas vezes provocativo que o tornou conhecido, incluindo promessas como a ampliação de acesso a cirurgias plásticas, divulgadas em linguagem típica de viralização.

Filiado ao PSDB, sua pré-candidatura a deputado federal evidencia como partidos tradicionais também passaram a incorporar figuras que operam fora da lógica institucional, apostando na capacidade de mobilização digital como principal ativo eleitoral. Entre as propostas iniciais, ele mencionou “cirurgia plástica pelo SUS”, mudanças na CLT e até “bolsa maconha”, gerando reações divididas.

Edmundo: capital esportivo e histórico controverso

Ex-atacante de destaque no futebol brasileiro, com passagens por clubes como Vasco e Palmeiras, Edmundo leva para a política um tipo de reconhecimento consolidado fora das redes sociais, mas igualmente poderoso em termos eleitorais. Ao mesmo tempo, sua trajetória inclui episódios controversos, como a condenação por homicídio culposo em acidente de trânsito, o que insere sua eventual candidatura em um campo de disputa que envolve memória pública, reputação e julgamento social.

Sua possível filiação ao PSDB, para concorrer a deputado estadual pelo Rio de Janeiro, indica a tentativa de capturar um eleitorado que valoriza figuras de perfil forte e trajetória marcada por exposição midiática.

Silvia Abravanel: herança midiática e reconhecimento de nome

Apresentadora do SBT e filha de Silvio Santos, Silvia Abravanel representa a entrada de herdeiros de grandes grupos de comunicação na política institucional. Sua filiação ao PSD e eventual candidatura se apoiam diretamente no reconhecimento de nome e na associação com uma das marcas mais populares da televisão brasileira.

Nesse caso, o capital político não vem das redes sociais, mas de décadas de presença indireta no cotidiano do público, mediada pela televisão.  A apresentingadora afirmou querer atuar na melhoria de espaços de atendimento para quem não tem condições de locomoção. Caso a candidatura se confirme, Silvia precisará se afastar do comando do “Sábado Animado” para cumprir as regras eleitorais. 

Val Marchiori: lifestyle, elite e projeção midiática

Empresária e socialite, Val Marchiori ganhou notoriedade em programas como “Mulheres Ricas” e construiu uma imagem pública associada ao luxo, ao lifestyle e à exposição social. Sua pré-candidatura pelo Republicanos reforça a presença de perfis cuja legitimidade eleitoral não está ligada à atuação política prévia, mas à capacidade de gerar atenção e reconhecimento.

 Após os relatos de dificuldades no sistema de saúde e sua experiência pessoal com o câncer, ela diz que seu foco na saúde da mulher e fiscalização de planos de saúde. Seu marido, o advogado Dr. Amilton Augusto, também se filiou ao partido e pretende disputar como deputado estadual.

Antônia Fontenelle: confronto, judicialização e polarização como capital político

Atriz, youtuber e influenciadora, Antônia Fontenelle construiu uma trajetória marcada por embates públicos, declarações controversas e envolvimento frequente em disputas judiciais. Sua movimentação em direção à política ocorre em um ambiente onde conflito, posicionamento direto e polarização se tornaram elementos centrais da comunicação.

Embora enfrente impedimentos judiciais que podem inviabilizar uma candidatura, seu nome ilustra um tipo de perfil político que já nasce inserido em disputas narrativas intensas. Segundo o advogado André Perecmanis, há a existência de um impedimento jurídico para a eventual candidatura de Antonia. Segundo ele, a filiação ao PSDB ocorre em um contexto no qual a influenciadora ainda não teria cumprido integralmente penas impostas em condenações anteriores envolvendo o youtuber Felipe Neto.

De acordo com o especialista, decisões recentes da Justiça indicam que Fontenelle permanece com restrições em seus direitos políticos. Nesse cenário, ela estaria legalmente impedida de disputar eleições neste momento, conforme entendimento firmado pelo Juizado Especial da Barra da Tijuca.

Manoel Gomes: viralização e política popular digital

Conhecido nacionalmente pela música “Caneta Azul”, Manoel Gomes transforma um fenômeno espontâneo da internet em plataforma política ao se lançar candidato a deputado federal pelo Avante. Sua candidatura é construída a partir de uma identificação direta com o público e de um discurso simples, centrado na ideia de “lutar pelo povo”.

O caso simboliza um estágio mais avançado da influência digital na política, em que viralização e carisma podem substituir estruturas tradicionais de campanha.

Augusto Cury: autoajuda, saúde mental e outsider presidencial

Psiquiatra e autor de best-sellers, Augusto Cury entra na disputa presidencial também pelo Avante, com um perfil que rompe completamente com a trajetória política convencional. Sua base está na autoridade construída no mercado editorial e no discurso voltado à saúde mental, desenvolvimento pessoal e comportamento.

Sua candidatura aponta para a entrada de narrativas terapêuticas e de autoajuda no campo político, ampliando o repertório de discursos presentes na disputa eleitoral.

Leão Lobo: mídia tradicional e transição para a política

Com décadas de atuação na televisão e no jornalismo de celebridades, Leão Lobo representa a migração de figuras da mídia tradicional para a política institucional. Filiado ao PT, seu nome amplia o espectro do fenômeno, mostrando que a estratégia não se limita a um único campo ideológico, embora seja mais concentrada em partidos de direita e centro-direita.

A coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, indicou que ele estava entre os nomes cotados para concorrer a deputado estadual ou federal em 2026.

Uma estratégia eleitoral consolidada em 2026

A presença desses nomes em 2026 não é aleatória. Partidos têm adotado de forma crescente a estratégia de lançar candidatos com alto reconhecimento público para funcionar como puxadores de votos no sistema proporcional. Em um cenário de fragmentação partidária e baixa identificação do eleitor com siglas, figuras com grande alcance ajudam a ampliar a votação total da legenda e garantir mais cadeiras no Legislativo.

Esse movimento é especialmente visível em partidos de direita e centro-direita, que têm incorporado com maior intensidade influenciadores e celebridades às suas chapas, aproveitando a conexão direta desses perfis com o eleitorado.

Quando a política encontra o entretenimento

O avanço dessas candidaturas indica uma transformação mais ampla. A política passa a operar cada vez mais sob a lógica da visibilidade, do engajamento e da comunicação direta, aproximando-se do funcionamento das redes sociais e do entretenimento.

Nesse novo cenário, experiência política deixa de ser o único — ou principal — critério de viabilidade eleitoral, dividindo espaço com capacidade de mobilização, alcance digital e reconhecimento público.

Mais do que uma lista de nomes improváveis, a eleição de 2026 revela uma mudança estrutural em curso: a redefinição do que significa ser candidato no Brasil contemporâneo.

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