
A compra da mineradora brasileira Serra Verde pela americana USA Rare Earth, anunciada na segunda-feira (20), colocou o Brasil no centro da disputa geopolítica por minerais críticos. O acordo avalia a empresa goiana em cerca de US$ 2,8 bilhões e prevê a aquisição de 100% do capital, com pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro e 126,8 milhões de novas ações da compradora. O fechamento está previsto para o terceiro trimestre de 2026, sujeito a aprovações regulatórias.
A Serra Verde opera a mina e a planta de processamento Pela Ema, em Goiás, único ativo em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Esses minerais são insumos essenciais para ímãs permanentes usados em carros elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos de defesa. A expectativa da compradora é que a produção da Serra Verde represente mais de 50% da oferta de terras raras pesadas fora da China até 2027.
A transação ocorre no contexto do esforço dos EUA para reduzir a dependência chinesa nesse mercado. Interlocutores do setor ouvidos pela CNN Brasil apontam que a empresa americana pagou um prêmio por um projeto que reúne escala, relevância geopolítica e proteção comercial.
Brasil em movimento
Enquanto isso, o Brasil avança em negociações com a União Europeia para uma parceria que vá além da simples extração mineral. Uma força-tarefa bilateral se reúne mensalmente desde novembro, e quatro projetos brasileiros estão em avaliação para receber investimentos europeus. O diretor da Comissão Europeia para América Latina e Caribe, Félix Fernández-Shaw, sinalizou disposição europeia para compartilhar tecnologia e desenvolver cadeias produtivas locais, mas alertou que o mercado tende a privilegiar apenas a compra de minas e produtos brutos.
O contraste entre as duas movimentações expõe um dilema central para o Brasil: o risco de repetir um modelo exportador de commodities em vez de avançar na industrialização da cadeia. Representantes do Ministério de Minas e Energia e da ApexBrasil reforçaram, durante a Hannover Messe 2026, realizada neste fim de semana na Alemanha, que a nova política industrial brasileira busca agregar valor internamente. O presidente da CNI, Ricardo Alban, foi direto: “Não pretendemos ser apenas um exportador de recursos naturais.”
A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos ainda está em discussão no âmbito do Conselho Nacional de Política Mineral, enquanto o tempo, e o mercado, seguem avançando.