Marcelo Camargo/Agência Brasil

O sindicato de bancos que emprestou R$ 1,8 bilhão aos Correios em junho de 2024 acionou uma cláusula contratual para bloquear o faturamento da estatal durante o segundo trimestre de 2025. A informação consta em documento interno do Departamento de Controladoria da Diretoria Econômico-Financeira (DIEFI), ao qual o portal G1 teve acesso. “O bloqueio de faturamento imposto pelos credores caracteriza cenário de alta criticidade, com impactos financeiros, operacionais e institucionais de grande magnitude”, afirmou o relatório.

A cláusula acionada previa estabilidade no estoque de precatórios (ordens de pagamento judiciais) a serem quitados pelos Correios. Com o reconhecimento de novas perdas processuais, o limite foi ultrapassado e os bancos exerceram direitos que incluíam a retenção integral dos valores em contas-garantia, execução imediata de garantias fiduciárias e exigência de pagamento antecipado da dívida. A estatal, então, enfrentou aperto de caixa no segundo semestre, com falta de liquidez que comprometeu o pagamento de fornecedores e ameaçou a continuidade de serviços essenciais. “A questão mais aguda de verdade era a liquidez, porque estava afetando a operação e a nossa capacidade de recuperação”, reconheceu o presidente dos Correios, Emmanoel Schmidt Rondon.

A saída encontrada pela gestão foi renegociar o contrato com o sindicato formado por Citibank, BTG Pactual e Banco ABC do Brasil. O novo acordo elevou o teto de precatórios reconhecidos para R$ 2,5 bilhões e suspendeu a apuração de novos casos entre setembro e dezembro de 2025. O custo, porém, foi alto: os Correios pagaram R$ 44,8 milhões em taxa de “dispensa de obrigação contratual” e aceitaram elevação dos juros de 3% para 4% ao ano mais DI — chegando a 5% mais DI a partir de novembro. A taxa efetiva saltou de 21,99% para 25,67% ao ano. O contrato prevê retorno à taxa original apenas se a estatal captar aporte superior a R$ 5 bilhões. Além disso, os pagamentos, antes semestrais a partir de maio de 2026, foram antecipados para janeiro deste ano e passaram a ser mensais.

A tomada de um empréstimo maior tornou-se prioridade. Nos últimos dias de 2025, os Correios fecharam operação de R$ 12 bilhões com consórcio formado por Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, com garantia do Tesouro Nacional. Segundo Rondon, Banco do Brasil, Caixa e Bradesco aportaram R$ 3 bilhões cada; Itaú e Santander, R$ 1,5 bilhão cada. O dinheiro, no entanto, mal alterou o resultado financeiro: foi usado para cobrir despesas emergenciais.

Os números de 2025 são contundentes. A estatal registrou prejuízo de R$ 8,5 bilhões — mais de três vezes os R$ 2,6 bilhões de 2024. Foram 14 trimestres consecutivos de prejuízo desde o quarto trimestre de 2022. As despesas com precatórios somaram R$ 6,4 bilhões, alta de 55,1% em um ano. Deste montante, R$ 2,63 bilhões referem-se a dívidas herdadas de gestões anteriores. A receita bruta caiu 11,35%, para R$ 17,3 bilhões, principalmente por redução de 66% nas encomendas internacionais, provocada por mudanças nas regras de tributação sobre importações de baixo valor.

A empresa também reservou R$ 2,63 bilhões para cobrir possíveis perdas em ações trabalhistas sobre adicionais de atividade e periculosidade. Em paralelo, lançou Plano de Demissão Voluntária (PDV): entre fevereiro e abril deste ano, 3.181 funcionários aderiram, com expectativa de redução de gastos de cerca de 40%. Somados aos PDVs de 2024 e 2025, as adesões chegam a 3.756 empregados, com economia estimada em R$ 147,1 milhões neste ano e projeção de R$ 775,7 milhões em 2026.

O alívio, porém, pode ser temporário. Em fevereiro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou nova operação de R$ 8 bilhões com garantias da União, cuja conclusão está prevista para o fim do primeiro semestre. A rolagem de dívidas com juros crescentes e a dependência de aportes do Tesouro sinalizam que a recuperação dos Correios ainda está longe de ser consolidada.

Veja também