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Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os gastos de brasileiros no exterior atingiram um novo recorde no primeiro trimestre de 2026, consolidando um movimento de retomada acelerada das viagens internacionais e ampliando a saída de dólares do país. O avanço ocorre em um contexto de valorização do real frente à moeda americana, aumento da renda disponível e demanda reprimida após anos de restrições.

Dados do Banco Central mostram que as despesas com viagens internacionais já vinham em trajetória de alta desde o início do ano. Apenas em janeiro, os brasileiros gastaram US$ 2,18 bilhões no exterior, um aumento de 22,4% em relação ao mesmo mês de 2025 e o maior valor para o período desde 2015. Esse movimento se intensificou ao longo do trimestre, levando o volume total de gastos ao maior patamar já registrado para o período, segundo levantamento divulgado pela autoridade monetária.

Crescimento consistente após anos de retração

O recorde do início de 2026 não ocorre isoladamente. Ele dá continuidade a uma tendência de recuperação iniciada após a pandemia, quando as viagens internacionais haviam despencado para níveis mínimos.

Em 2020, no auge das restrições sanitárias, os brasileiros gastaram apenas US$ 5,4 bilhões no exterior. Esse valor subiu gradualmente nos anos seguintes: US$ 13,4 bilhões em 2022, US$ 17,9 bilhões em 2023 e US$ 19,7 bilhões em 2024, até atingir US$ 21,7 bilhões em 2025 — o maior patamar desde 2014. A retomada coloca o país novamente próximo dos níveis observados antes da crise econômica e cambial da década passada, quando os gastos chegaram a ultrapassar US$ 25 bilhões em 2014.

A principal variável por trás do aumento recente é o câmbio. A queda do dólar frente ao real ao longo de 2025 e início de 2026 tornou viagens internacionais mais acessíveis, estimulando a demanda por turismo e consumo no exterior. Além disso, o mercado de trabalho mais aquecido e o aumento da massa salarial contribuíram para ampliar a capacidade de consumo das famílias, segundo análises do próprio Banco Central.

Outro fator relevante é a chamada demanda reprimida: muitos brasileiros que adiaram viagens durante a pandemia passaram a retomar planos internacionais, gerando um efeito acumulado nos últimos dois anos.

Impacto nas contas externas

O aumento dos gastos no exterior tem impacto direto nas contas externas do país, especialmente na balança de serviços. Quanto mais brasileiros consomem fora do país, maior é a saída de dólares, o que pressiona o saldo das transações correntes. Em 2025, esse movimento já havia contribuído para ampliar o déficit externo, que atingiu US$ 68,7 bilhões, o maior desde 2014.

Ao mesmo tempo, os gastos de estrangeiros no Brasil não acompanharam o mesmo ritmo de crescimento, o que amplia o desequilíbrio entre entrada e saída de recursos no setor de turismo.

A expectativa do mercado é que o movimento continue ao longo de 2026, especialmente se o câmbio permanecer favorável e o consumo interno seguir aquecido.

Dados recentes do Banco Central indicam que, em alguns meses, as despesas com viagens internacionais já apresentam crescimento próximo de 50% na comparação anual, reforçando a tendência de expansão. A continuidade desse cenário dependerá de fatores como a trajetória do dólar, o nível de renda das famílias e as condições econômicas globais.

Um novo ciclo de consumo externo

O recorde de gastos no primeiro trimestre sinaliza a consolidação de um novo ciclo de consumo externo dos brasileiros, com maior presença em destinos internacionais e aumento das despesas fora do país.

Ao mesmo tempo, o avanço reforça um dilema econômico: o crescimento das viagens internacionais indica melhora no poder de compra, mas amplia a pressão sobre as contas externas — um equilíbrio que deve seguir no centro das atenções ao longo do ano.

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