Tarcísio
Reprodução delegadodacunha.com

A gestão do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) se movimenta para impedir a demissão do deputado federal bolsonarista Delegado da Cunha (União Brasil-SP) da Polícia Civil de São Paulo, revertendo uma decisão já tomada pelo Conselho da corporação e que aguarda, há anos, uma definição final do Executivo estadual.

O processo administrativo disciplinar contra o delegado tem origem em episódios ocorridos em 2021, quando ele admitiu ter encenado ações policiais para vídeos divulgados em suas redes sociais. Em um dos casos, a gravação simulava o resgate de uma vítima de sequestro; em outro, a prisão de um suposto integrante do crime organizado foi posteriormente considerada irregular, já que a pessoa detida não correspondia ao papel atribuído no vídeo.

Esses episódios foram considerados graves pela Corregedoria da Polícia Civil, que apontou violação de protocolos operacionais e risco à credibilidade institucional. A partir disso, o Conselho da corporação aprovou, em 2022, a recomendação de demissão do delegado, encaminhando o caso ao governo estadual, comandado por Tarcísio de Freitas, o responsável pela decisão final.

Processo travado e decisão política em curso

Apesar da recomendação formal pela expulsão, o processo nunca foi concluído. A decisão ficou paralisada entre gestões e agora deve ser revertida pela administração atual, que sinaliza pela manutenção do delegado nos quadros da Polícia Civil.

Na prática, isso significa que um processo disciplinar já aprovado internamente poderá ser anulado por decisão política do Executivo, o que tende a gerar reação dentro da própria corporação, especialmente entre setores que defendem maior rigor na aplicação das regras disciplinares.

O caso também envolve um segundo processo administrativo aprovado posteriormente, relacionado a declarações públicas do delegado contra integrantes da cúpula da Polícia Civil, o que ampliou o histórico de conflitos internos.

Entre redes sociais e função policial

Aliado direto de Tarcísio, a trajetória de Delegado da Cunha é marcada pela forte presença digital. Com milhões de seguidores, ele construiu visibilidade pública a partir da divulgação de operações policiais e conteúdos de segurança pública nas redes sociais.

Esse modelo de atuação, no entanto, passou a ser questionado internamente após a constatação de que parte dessas ações teria sido encenada ou produzida sem autorização institucional, o que levou à abertura de investigações por possível uso indevido da estrutura policial e desvio de finalidade.

O delegado chegou a ser afastado das funções operacionais em 2021 e teve arma e distintivo recolhidos, embora posteriormente tenha retomado parte de suas prerrogativas.

Mesmo após o avanço dos processos disciplinares, foi eleito deputado federal em 2022 e permanece licenciado da função policial para exercer o mandato, o que não impede a continuidade das apurações administrativas.

Segurança pública, política e disputa interna na era Tarcísio

A possível reversão da demissão ocorre em um contexto mais amplo de reorganização da segurança pública paulista sob a gestão Tarcísio. O governo de São Paulo tem promovido mudanças estruturais nas carreiras policiais e busca recompor relações com setores da corporação, em meio a críticas sobre orçamento, gestão e diretrizes operacionais.

Nesse cenário, a decisão sobre o caso ganha peso político. A manutenção do delegado pode ser interpretada como sinalização de alinhamento com um perfil mais midiático e politizado de atuação policial, ao mesmo tempo em que tensiona a relação com segmentos que defendem maior controle institucional e padronização de conduta.

O episódio também expõe um fenômeno mais amplo: a transformação de agentes de segurança em figuras públicas com atuação simultânea na política e nas redes sociais. Esse cruzamento tem ampliado a visibilidade desses profissionais, mas também gerado conflitos com normas tradicionais das corporações.

Um caso que vai além do processo disciplinar

Mais do que a situação individual do Delegado da Cunha, o caso evidencia um problema maior na segurança pública brasileira. A sobreposição entre atuação policial, comunicação digital e carreira política cria uma zona de conflito entre regras institucionais e estratégias de exposição pública.

A decisão final do governo de São Paulo ainda não foi formalizada, mas a tendência de reversão da demissão indica que o desfecho será determinado mais por critérios políticos do que exclusivamente técnicos.

O caso, assim, se consolida como um dos mais simbólicos dessa nova fase, em que a disputa sobre o papel das forças de segurança ultrapassa os limites da corporação e passa a refletir embates mais amplos sobre autoridade, comunicação e poder.

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