A Polícia Militar de São Paulo atravessa uma de suas crises mais profundas em décadas. A combinação de escândalos internos, denúncias de conivência com o crime organizado, execuções de civis por agentes do Estado e uma escalada de latrocínios na capital paulista compõe um quadro de deterioração institucional que ameaça não apenas a credibilidade da corporação, mas também o futuro político de quem a comanda.

A crise tem muitos símbolos, mas poucos tão brutais quanto o destino de Marco Aurélio Navarro, estudante de medicina de 22 anos morto em 2024 por um policial militar após dar um tapa no retrovisor de uma viatura. Desarmado. A queima-roupa. O jovem era filho dos médicos Júlio César Navarro e Silvia Mónica Cárdenas, que esperaram um ano e meio para serem recebidos por um representante do governo paulista. O encontro, ocorrido no dia 16, se deu com o atual secretário da Segurança Pública, Oswaldo Nico Gonçalves, já na gestão pós-Derrite. O então secretário Guilherme Derrite, de acordo com apuração do Estadão, jamais os recebeu.

A morte de Marco Aurélio não foi um episódio isolado. É o retrato de uma cultura institucional que transformou o vocabulário de guerra em licença para matar. O ex-secretário costumava dizer à tropa que estava em “uma guerra” — palavras que, na linha de frente, produzem efeitos devastadores. O resultado é uma lista que não para de crescer: o PM de folga que matou um empresário com um tiro na nuca porque julgou ser um ladrão, o agente que jogou um detido de uma ponte, o tenente que executou um mendigo que implorava compaixão. Houve ainda PMs flagrados acertando pessoas com estilingue e pauladas, e até racha com viatura policial. A lista, dizem coronéis da corporação, é simplesmente enorme.

Agência SP

A rota do crime dentro da Rota

Se a violência nas ruas já seria suficiente para provocar uma crise de gestão, o que veio à tona nas últimas semanas aprofundou o abismo. Um depoimento sigiloso do promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), à Corregedoria da PM, revelado pelo Estadão, detalha um esquema de vazamento de informações sigilosas dentro da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar — a Rota, tropa de elite da corporação — em benefício do Primeiro Comando da Capital, o PCC.

Segundo Gakiya, o principal nome do combate ao PCC no país, ele informou pessoalmente ao então comandante-geral da PM, coronel José Augusto Coutinho, na época também chefe da Rota, sobre um vazamento que teria contribuído para a fuga de Marcos Roberto de Almeida, o Tuta, então número 1 da facção paulista nas ruas. Na mesma ocasião, relatou a existência de uma gravação ilegal feita por PMs da Rota durante uma reunião com o próprio promotor, áudio que foi vendido posteriormente ao traficante.

O encontro aconteceu em 30 de novembro de 2021, na sede do Ministério Público de São Paulo. Gakiya chegou a reproduzir áudios que implicavam a tropa. A resposta de Coutinho, segundo o depoimento, foi a negação: não apenas não tomou providências, como acusou um integrante da Secretaria da Administração Penitenciária de ser o responsável pelo vazamento. O documento aponta que o coronel pode responder por prevaricação e condescendência criminosa, tipificações do Código Penal Militar.

O ouvidor das Polícias de São Paulo, Mauro Caseri, ao O Globo, não deixou margem para eufemismos ao avaliar o caso: “É gravíssimo. Enfraquece a instituição, enfraquece a gestão, enfraquece o poder público. Isso traz para a sociedade um olhar de desconfiança muito grande de quem é que controla as forças de segurança desse estado. Isso é muito ruim. Isso é péssimo.”

Troca de comando

As revelações de Gakiya aceleraram o que o governo tratou de apresentar como uma transição natural. No dia 16, o governador Tarcísio de Freitas oficializou a saída de Coutinho do comando-geral da PM, com a explicação de que o coronel pediu para ir para a reserva. Em seu lugar, pela primeira vez na história da corporação, assumiu uma mulher: a coronel Glauce Anselmo Cavalli.

Tarcísio foi categórico ao negar qualquer relação entre a saída de Coutinho e a investigação em curso: “O coronel Coutinho tem uma reputação ilibada, é uma pessoa que sempre prestou excelente serviço na Polícia Militar. Essas trocas são comuns.” A defesa do coronel reforçou a linha, afirmando que seu cliente tem 34 anos de carreira “sem jamais ter sido alvo de qualquer processo ou investigação por irregularidades”. A Secretaria de Comunicação do governo se recusou a comentar investigações conduzidas pela Corregedoria, citando sigilo legal previsto na legislação penal-militar.

O peso político sobre Derrite

Para o entorno de Tarcísio de Freitas, a percepção é clara, ainda que raramente dita em voz alta: nomear Guilherme Derrite para a Segurança Pública foi um erro. Derrite, com pretensões políticas próprias, teria usado o cargo para aparelhar a corporação. Formou um grupo de capitães de sua turma de Academia que passou por cima de superiores, corroendo a hierarquia. Promoveu a postos-chave amigos da Rota — entre eles o próprio Coutinho.

Lula Marques/Agência Brasil

As suspeitas não param aí. Há denúncias de licitações irregulares no Centro Integrado de Comando e Controle e acusações de venda de exame psicotécnico em concursos da PM. A corporação acumula 13 mil vagas ociosas enquanto sobram assessores nos palácios. Para coronéis ouvidos em reservado, há falta comando e controle porque a política partidária entrou pela porta dos quartéis, em substituição à política que zela pelo bem público.

Números alarmantes nas ruas

A crise institucional encontrou sua expressão mais brutal nas ruas da capital paulista no último feriadão. Em menos de uma semana, a cidade registrou três casos de latrocínio — o mesmo número de ocorrências de todo o primeiro bimestre de 2026, segundo dados da própria Secretaria da Segurança Pública.

As circunstâncias dos crimes aprofundam o alarme. No domingo, dia 19, a guarda civil metropolitana Sara Andrade dos Reis, de 34 anos, foi encontrada morta na região da Saúde, vítima de disparos na cabeça e nos ombros após ter sua arma roubada na Rodovia dos Imigrantes. No mesmo domingo, um homem de 46 anos morreu após tentar impedir um assalto em Moema. Na quinta-feira anterior, outro homem de 42 anos foi morto ao avançar o carro contra assaltantes que abordavam um entregador no Jardim Ângela. Na segunda-feira, dia 20, um rapaz de 26 anos foi baleado no peito ao tentar proteger a namorada de um assalto na Vila Olímpia.

O secretário Nico Gonçalves afirmou que esclarecer os latrocínios é “questão de honra para a polícia”. Uma definição que parece mais frouxa à luz das pesarosas circunstâncias da corporação.

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