
O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo) transformou o Supremo Tribunal Federal em sua principal plataforma de lançamento para a Presidência da República. Em uma estratégia calculada de confronto institucional, o pré-candidato que até pouco tempo atrás patinava nas pesquisas de opinião, apesar de ter governado um dos três maiores colégios eleitorais do país por quase oito anos, conseguiu, em poucas semanas, se colocar no centro do debate nacional e ameaçar a hegemonia de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na direita.
A tática começou a dar frutos com a publicação de uma série de vídeos nas redes sociais nos quais Zema ataca ministros do STF com críticas ácidas e insinuações criminosas. Os conteúdos viralizaram não apenas entre eleitores, mas também atingiram em cheio a corte: o ministro Gilmar Mendes mordeu a isca e pediu a inclusão do ex-governador no inquérito das fake news, aberto há sete anos e sob relatoria de Alexandre de Moraes. O episódio alçou Zema ao topo das buscas digitais e lhe rendeu centenas de milhares de novos seguidores.
A escalada do confronto atingiu o ápice no último fim de semana, quando Zema lançou mais um vídeo da série “Intocáveis”, produzido com inteligência artificial. Na gravação, personagens fictícios representando Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes são ridicularizados. O “Mendes” animado solicita a prisão do “Chico Bento mineiro” e ironiza o inquérito das fake news como um instrumento onde “se coloca tudo que não te agrada, te irrita ou te contraria emocionalmente”. Já o “Moraes” aparece dentro de um avião com logotipos do Banco Master e do STF, reclamando de ter que lidar com Zema.
A reação de Gilmar Mendes não se limitou ao pedido de investigação. Em entrevista, o decano da Corte utilizou uma comparação homofóbica para ilustrar o que considerava ofensivo no tratamento dado por Zema aos ministros — “Imagine que comecemos a fazer bonecos do Zema como homossexual. Será que não é ofensivo?” —, para depois se desculpar nas redes sociais. O descontrole reforçou a narrativa de Zema como vítima de perseguição institucional.
O movimento tem surtido efeito concreto na disputa eleitoral. Grupos focais de pesquisa qualitativa, aqueles que investigam o sentimento do eleitor em pequenos segmentos, começaram a mencionar não apenas Zema e o STF, mas também a criticar o silêncio de Flávio Bolsonaro e do presidente Lula (PT) diante da crise reputacional do Supremo. Eleitores antissistema que integram as pesquisas tanto de Zema quanto de rivais passaram a queixar-se de que “os Bolsonaro só atacam o Supremo para beneficiar a própria família, não para ‘salvar o país'”, enquanto eleitores de esquerda questionam quando “Lula vai aparecer para resolver o problema”.
A ascensão de Zema ganhou dimensão nacional justamente por contrastar com a paralisia de Flávio Bolsonaro. Dados de monitoramento de mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp pela empresa Palver revelam que, enquanto Flávio mantém saldo equilibrado de 50% de aprovação e 50% de rejeição, Zema alcança 53% de aprovação — o melhor índice entre os concorrentes do campo conservador. Mais significativo ainda: o volume de menções a Zema nas redes da direita se aproxima cada vez mais do volume de menções a Flávio.
Até pouco tempo atrás, Zema era tratado como candidato regional sem viabilidade nacional, o que o protegia de ataques significativos do bolsonarismo. Seu tensionamento recente contra o STF, no entanto, circula com tom de combatividade que Flávio não tem adotado.
A pressão sobre o senador vem de múltiplos flancos. Em evento fechado com investidores em São Paulo na semana passada, aliados de Flávio defenderam o nome de Zema como vice ideal na chapa, numa articulação que buscaria transferir ao senador atributos que lhe faltam: senioridade, experiência no Executivo e, sobretudo, “compliance total” — um sinal de que o Zero Um estaria buscando um parceiro distante do “Centrão esquemeiro”. A comparação, segundo apuração do colunista Lauro Jardim, de O Globo, chegou a evocar Marco Maciel como vice de FHC e José Alencar como vice de Lula.
O crescimento de Zema cria uma oportunidade tática para o núcleo dissidente do bolsonarismo. Apoiá-lo em pautas específicas, sem romper formalmente com a família Bolsonaro, permite que esse grupo teste a viabilidade de uma direita conservadora sem o sobrenome.
A poucos meses das eleições, um movimento mais aberto de descolamento da família Bolsonaro pode produzir uma “guerra civil” dentro da direita, aumentando as vantagens de Lula, que já opera com a máquina pública, coesão partidária e janela para absorver quadros competitivos para o Senado. Para Flávio Bolsonaro, a equação é cada vez mais complexa: se não consegue empolgar e aglutinar aqueles que já estão em seu campo, torna-se muito mais difícil construir a militância necessária para fazer a diferença nas urnas.