
A Copa do Mundo de 2026 poderia ter se consagrado como o capítulo mais vistoso da gloriosa carreira de Lionel Messi. Depois de ser encurralada durante 120 minutos, com um jogador a menos, a Argentina poderia ter triunfado nos pênaltis, conquistado o tetracampeonato e feito do “último tango” de toda uma geração, a conclusão perfeita.. O futebol, porém, raramente respeita roteiros tão apoteóticos.
A épica jornada argentina, marcada por paixão, raça, superação e lampejos da genialidade de um dos maiores jogadores da história, terminou no vice-campeonato. E terminou de maneira contundente. Na decisão disputada no MetLife Stadium, em Nova Jersey, a Espanha simplesmente incapacitou a Argentina de jogar futebol.
Messi foi discreto. Embora tenha apresentado os melhores índices ofensivos da seleção argentina, pouco pôde fazer diante de uma equipe que o anulou por meio de um posicionamento defensivo quase tão extraordinário quanto o talento do camisa 10. A Espanha teve quase 70% de posse de bola, finalizou 20 vezes e acertou o alvo em 12 oportunidades. Dibu Martínez precisou fazer 11 defesas — mais do que Unai Simón, eleito o melhor goleiro da competição, realizou durante toda a Copa.
É um dado que ajuda a dimensionar o domínio espanhol.
A Espanha foi, afinal, a seleção menos vazada da história dos Mundiais. Uma equipe que se impõe pelo controle territorial, pela circulação da bola e pela capacidade de minar, pouco a pouco, as virtudes do adversário. Ao longo da competição, foi crescendo. Começou de maneira hesitante, com um empate diante de Cabo Verde, passou por uma goleada relativamente protocolar contra a Arábia Saudita e protagonizou um dos jogos mais pobres do torneio, na vitória por 1 a 0 sobre o Uruguai.
Depois, porém, a equipe encontrou seu melhor futebol.
Eliminou a Áustria com autoridade, superou Portugal no clássico ibérico em um jogo cozinhado até o gol decisivo no fim, enfrentou uma Bélgica em processo de reabilitação e sofreu seu único gol na competição. Nas semifinais, diante da favorita França, realizou uma partida praticamente perfeita e venceu por 2 a 0.
A final, portanto, não foi um acidente. A Espanha chegou até ali porque tinha uma identidade sólida. A Argentina, por outro lado, carregava uma narrativa mais poderosa. Era a atual campeã, tinha Messi e vinha construindo uma campanha de superação. Entrou em campo como azarona, mas também como protagonista de um possível conto de fadas.
No MetLife Stadium, contudo, a Argentina não parecia a Argentina. Não houve a intensidade, o brio ou a resistência que haviam marcado sua trajetória. A Espanha não apenas venceu: impediu que os argentinos fossem eles mesmos. Não permitiu a circulação da bola, as transições rápidas ou a imposição física e emocional que tantas vezes definiram a equipe.
Foi um domínio tão absoluto que, mesmo em partidas com placares mais elásticos, é difícil lembrar de uma final de Copa em que uma seleção tenha neutralizado a outra de maneira tão completa.
A Espanha é uma campeã legítima. Não há como contestar. Venceu França e Argentina, duas das melhores seleções do mundo. Possui talentos extraordinários como Rodri, Dani Olmo, Fabián Ruiz e Lamine Yamal. Mas o triunfo espanhol também simboliza a prevalência de um futebol que troca a criatividade pelo pragmatismo.
Não se trata de negar a qualidade técnica da equipe. O toque rápido, a cadência, o controle tático e a inteligência coletiva são virtudes inegáveis. O problema é que esse domínio nem sempre se transforma em encantamento. A Espanha controla, administra, sufoca. Mas raramente deslumbra. É o futebol eficiente levado à sua forma mais sofisticada e, talvez por isso mesmo, mais burocrática.
O paradoxo é que a maior Copa do Mundo de todos os tempos poderia ter terminado com uma história eterna: Messi, aos 39 anos, carregando a Argentina ao tetracampeonato depois de uma campanha heroica. Em vez disso, terminou com a vitória de uma seleção extremamente competente e com a derrota de uma narrativa que parecia pronta para entrar nos anais do futebol.
A Espanha será lembrada como campeã. Com justiça.
Mas, quando a próxima Copa começar — justamente com a Espanha como um dos países-sede —, talvez seja a Argentina de 2026 que muitos ainda estarão tentando esquecer.