Um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia no começo desta semana, deixando um rastro de destruição que já soma pelo menos 220 mortos. Há bairros inteiros com prédios rachados, estradas partidas e famílias desabrigadas, enquanto equipes de emergência trabalham contra o tempo em meio ao risco constante de deslizamentos de terra e liquefação do solo em áreas urbanas mais vulneráveis. É mais um capítulo de dor em uma região que, nas últimas semanas, viu a terra tremer com uma frequência incomum e que agora se pergunta se os episódios têm alguma relação entre si, ou se são apenas coincidências trágicas de um continente geologicamente inquieto.

Segundo especialistas, o terremoto colombiano teve origem em um processo de subducção: a placa oceânica de Nazca mergulhando sob a placa Sul-Americana, a uma profundidade estimada entre 100 e 110 quilômetros. Trata-se de um chamado terremoto intraslab; ou seja, um sismo que não ocorre na interface de contato entre as duas placas, mas sim dentro da própria placa que está afundando, resultado das forças de tensão que a dobram e esticam ao longo de sua descida rumo ao manto terrestre.

Essa profundidade expressiva foi, segundo os especialistas, um fator decisivo para conter uma tragédia ainda maior. Quando o foco de um terremoto está mais fundo, as ondas sísmicas precisam atravessar uma quantidade maior de rocha até chegar à superfície, perdendo parte significativa de sua energia destrutiva pelo caminho. O resultado foi um sismo poderoso, mas que, dentro da lógica cruel dos desastres naturais, causou proporcionalmente menos vítimas do que poderia.

O contraste com a tragédia venezuelana

A comparação com o que aconteceu na Venezuela poucas semanas antes é inevitável. Lá, dois terremotos consecutivos, de magnitude 7,2 e 7,5, atingiram praticamente a mesma região com um intervalo de apenas 39 segundos entre um e outro, em um fenômeno raro conhecido como “terremoto duplo”. O resultado foi devastador com mais de 5 mil mortos, 16 mil feridos e dezenas de milhares de desabrigados, com colapsos generalizados de edifícios em áreas como La Guaira.

As diferenças entre os dois episódios explicam por que o número de vítimas foi tão distinto, mesmo com magnitudes comparáveis. Primeiro, a profundidade: enquanto o sismo colombiano nasceu a mais de 100 quilômetros da superfície, os tremores venezuelanos foram extremamente rasos — 22 quilômetros o primeiro, apenas 10 quilômetros o segundo —, o que concentrou toda a força destrutiva sobre as áreas habitadas. Segundo, o mecanismo tectônico: a Colômbia sofreu um evento de subducção intraslab, enquanto a Venezuela foi sacudida por uma falha de deslocamento lateral, decorrente do atrito horizontal direto entre a placa do Caribe e a placa Sul-Americana, que é um tipo de ruptura que ocorre muito mais perto do nível do solo. Terceiro, a repetição: a Colômbia enfrentou um único abalo principal, seguido de réplicas de menor intensidade, ao passo que a Venezuela foi atingida duas vezes em questão de segundos, sem qualquer chance de que as estruturas já enfraquecidas se estabilizassem antes do segundo golpe.

Ainda assim, os dois desastres compartilham pontos em comum: magnitudes igualmente elevadas, a presença da placa Sul-Americana como pano de fundo geológico comum, e uma vulnerabilidade estrutural semelhante, fruto da falta de tecnologias construtivas robustas capazes de resistir a abalos dessa magnitude.

O que significa acontecer em tão pouco tempo

A proximidade temporal entre os dois eventos (entre junho e agosto) enseja a preocupação se há relação entre os eventos. Segundo sismólogos, a resposta é não, ao menos não de causa e efeito direta. Os dois terremotos se originaram em sistemas de falhas geologicamente independentes, em bordas de placas diferentes: a Colômbia na borda oeste, sob influência da placa de Nazca; a Venezuela na borda norte, sob influência da placa do Caribe.

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A explicação para essa aparente “onda” de grandes sismos está na própria complexidade tectônica da América do Sul. O noroeste do continente é uma das regiões de maior atividade sismológica do planeta, ponto de encontro entre três grandes placas (Sul-Americana, Nazca e Caribe) além de blocos menores, como o de Panamá-Chocó. Essa interação constante faz com que a energia sísmica se acumule continuamente em diferentes sistemas de falhas, prontos para se romper de forma praticamente independente uns dos outros.

Também entra em jogo a estatística: a Terra registra, em média, cerca de um terremoto de magnitude 8 ou superior por ano, e aproximadamente dez de magnitude 7 no mesmo período. Para países situados no Círculo de Fogo do Pacífico e em suas adjacências, como é o caso da Colômbia e da Venezuela, esses eventos não são anomalias, mas parte de um regime geológico permanente de tensão acumulada.

Há ainda uma hipótese técnica discutida por especialistas: a chamada transferência de estresse entre falhas, que pode ser estática – um empurrão físico e permanente causado pelo deslocamento da rocha, de efeito localizado – ou dinâmica, provocada pela passagem de ondas sísmicas que podem viajar milhares de quilômetros e, em tese, atuar como gatilho para falhas distantes que já estejam no limite de sua resistência. Ainda que não haja consenso de que um evento tenha desencadeado o outro, a hipótese ilustra como falhas aparentemente distantes podem estar mais conectadas do que parecem.

Chile como contraponto e o caso brasileiro

Nesse cenário de fragilidade, o Chile é frequentemente citado como exemplo a ser seguido. Décadas de investimento em engenharia antissísmica, planejamento urbano rigoroso e gestão de risco territorial permitiram ao país erguer construções capazes de balançar sem desabar, mesmo em áreas de choque intenso entre placas. Isso ajuda a entender por que sismos de magnitude semelhante tendem a causar muito menos mortes ali do que em países como Colômbia e Venezuela, ainda carentes de fiscalização e tecnologia construtiva equivalentes.

E o Brasil? O risco de terremotos fortes por aqui permanece baixo. Diferentemente dos vizinhos andinos e caribenhos, o território brasileiro está situado no interior da placa Sul-Americana, longe das bordas de atrito direto entre placas, onde a energia sísmica se acumula com mais intensidade. Os tremores registrados no país resultam de pequenos ajustes internos da crosta, geralmente de baixa magnitude. O maior já registrado ocorreu em Mato Grosso, em 1955, com magnitude 6,2. Ele foi expressivo para os padrões brasileiros, mas ainda assim muito distante do potencial destrutivo observado na Colômbia e na Venezuela.

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