Trump
Reuters/Jonathan Drake

Integrantes do governo Donald Trump tentaram, nos bastidores da Casa Branca, desqualificar máquinas de votação usadas em mais da metade dos estados americanos com base em teorias conspiratórias já desmentidas sobre fraude eleitoral e interferência estrangeira. A informação foi revelada nesta sexta-feira (22) pela agência Reuters e expõe uma das iniciativas mais agressivas já discutidas por aliados de Trump para ampliar o controle federal sobre o sistema eleitoral dos Estados Unidos.

Segundo a Reuters, o principal articulador da proposta foi Kurt Olsen, advogado ligado ao movimento “Stop the Steal” e atual responsável pela área de segurança eleitoral da Casa Branca. Olsen defendia que o governo americano classificasse componentes das máquinas da empresa Dominion Voting Systems como ameaça à segurança nacional, numa tentativa de impedir o uso dos equipamentos em eleições futuras.

As máquinas da Dominion são utilizadas em mais de 25 estados americanos e estiveram no centro das falsas acusações de fraude disseminadas por Trump após a derrota para Joe Biden nas eleições de 2020. Diversas auditorias, investigações estaduais, decisões judiciais e órgãos federais já concluíram que não houve evidência de manipulação eleitoral envolvendo o sistema.

Plano previa substituir urnas por contagem manual

De acordo com a reportagem, aliados de Trump discutiram a possibilidade de substituir parte do sistema eleitoral eletrônico americano por um modelo baseado em cédulas de papel contadas manualmente.

A proposta foi analisada por integrantes da Casa Branca, do Departamento de Comércio e de setores ligados à inteligência americana. O objetivo seria usar alegações de “risco tecnológico estrangeiro” para justificar a retirada das máquinas da Dominion do processo eleitoral.

Investigadores ligados ao governo chegaram a examinar equipamentos usados em Porto Rico em busca de supostos sinais de malware ou interferência internacional, mas não encontraram evidências que sustentassem as acusações.

Especialistas em segurança eleitoral ouvidos por veículos americanos afirmam que a substituição por contagem manual em larga escala poderia aumentar riscos de erros, atrasos e fraudes humanas, além de gerar caos administrativo nas eleições americanas.

Teorias sobre Dominion já custaram bilhões

As acusações envolvendo a Dominion Voting Systems se tornaram um dos principais pilares da narrativa de fraude eleitoral promovida por Trump após as eleições de 2020.

Aliados do então presidente afirmavam, sem provas, que as máquinas teriam “invertido votos” ou sido manipuladas por interesses estrangeiros ligados à Venezuela e à China. As alegações foram amplamente rejeitadas por autoridades eleitorais republicanas e democratas, além de órgãos federais de cibersegurança.

Em 2023, a Fox News concordou em pagar US$ 787,5 milhões para encerrar um processo movido pela Dominion por difamação após a emissora divulgar repetidamente acusações falsas sobre fraude eleitoral.

Mesmo assim, Trump e aliados continuaram defendendo publicamente teorias envolvendo as máquinas de votação. Nos últimos meses, o ex-presidente voltou a levantar suspeitas sobre sistemas eleitorais em discursos e postagens nas redes sociais.

Democratas acusam tentativa de “federalizar” eleições

A revelação provocou reação imediata entre parlamentares democratas e especialistas em direito eleitoral. Senadores liderados por Alex Padilla pediram a saída de Kurt Olsen do cargo e acusaram a Casa Branca de tentar “federalizar” o sistema eleitoral americano, tradicionalmente controlado pelos estados.

Críticos afirmam que a iniciativa representa uma escalada sem precedentes das tentativas de Trump de desacreditar o sistema eleitoral americano mesmo após sucessivas derrotas judiciais relacionadas às alegações de fraude de 2020.

Especialistas também apontam que o avanço de teorias conspiratórias sobre eleições passou a gerar preocupação crescente dentro de tribunais, departamentos eleitorais e órgãos de segurança nos Estados Unidos.

Debate sobre democracia e desinformação ganha nova força

A nova revelação surge em um momento de polarização intensa nos Estados Unidos e amplia o debate sobre desinformação eleitoral, teorias conspiratórias e confiança pública nas instituições democráticas.

Desde 2020, pesquisas mostram crescimento da desconfiança de parte do eleitorado republicano em relação às urnas eletrônicas e ao processo eleitoral. Analistas afirmam que essa narrativa passou a influenciar disputas estaduais, reformas eleitorais e campanhas políticas em diferentes regiões do país.

A Reuters informou que o plano acabou abandonado após integrantes do governo concluírem que não havia evidências técnicas ou legais suficientes para justificar uma intervenção federal contra os sistemas de votação. Ainda assim, o episódio expôs o alcance das discussões internas dentro da administração Trump sobre mudanças radicais no processo eleitoral americano.

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