Erika
Metrópoles

A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) acionou nesta quinta-feira (26) a Advocacia-Geral da União (AGU) contra o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e perfis ligados ao movimento “red pill”, em uma tentativa de levar ao campo institucional uma disputa que vinha sendo travada nas redes sociais em torno do projeto de lei que criminaliza a misoginia.

A medida ocorre no momento em que o texto, aprovado esta semana no Senado, entra em fase de maior exposição política na Câmara dos Deputados, etapa em que projetos sensíveis costumam ser alvo de campanhas de pressão pública. Segundo Hilton, o que está em curso não é apenas oposição ao mérito da proposta, mas uma estratégia deliberada de distorção do seu conteúdo para influenciar o debate antes da votação.

“Estou denunciando à AGU o deputado Nikolas Ferreira e uma série de outros perfis, muitos ligados ao movimento red pill. O motivo? Eles estão mentindo sobre o teor do Projeto de Lei que criminaliza a misoginia”, afirmou a deputada.

A disputa não é só sobre o projeto, aponta Erika

O projeto em discussão busca tipificar práticas de misoginia como forma de violência, com foco em ataques, ameaças e discursos de ódio direcionados a mulheres, especialmente no ambiente digital. A proposta se insere em uma agenda mais ampla de enfrentamento à violência de gênero e de responsabilização por condutas que ultrapassam o limite da expressão e atingem a integridade física e psicológica.

Nas redes sociais, no entanto, a circulação do projeto passou a ser acompanhada por versões que, segundo Hilton, não correspondem ao texto aprovado. “Esses perfis estão publicando ou republicando as mesmas imagens que trazem um texto completamente diferente do texto aprovado no Senado, dizendo que é esse o Projeto de Lei que foi aprovado”, afirmou.

Entre as narrativas disseminadas, a deputada cita a alegação de que homens seriam impedidos de falar com mulheres, interpretação que não consta na proposta. “Ou então, estão fazendo afirmações completamente absurdas, como a de que homens não poderão mais falar com mulheres”, disse.

A leitura apresentada pela parlamentar é de que a disputa foi deslocada do conteúdo real do projeto para uma versão fabricada dele, com o objetivo de provocar reação social. Nas plataformas, Nikolas chegou a mencionar que o projeto seria uma “aberração” e “loucura”. “Isso é tudo uma grande mentira. Mas uma mentira que já soma milhões e milhões de visualizações”, afirmou Hilton.

Desinformação como instrumento de pressão política

Ao acionar a AGU, Hilton tenta enquadrar o episódio como algo que ultrapassa a divergência política e passa a afetar diretamente o processo legislativo. Na avaliação da deputada, a circulação coordenada de conteúdos falsos compromete a formação da opinião pública e interfere na tramitação de propostas no Congresso.

“Mesmo sendo mentira, isso é um atentado ao processo legislativo e democrático”, afirmou. “É inaceitável que parlamentares mintam abertamente sobre o texto de Projetos que serão pautados e todo um movimento se organize para confundir a sociedade.”

A iniciativa busca, portanto, abrir um precedente institucional para a responsabilização de agentes públicos e perfis que atuam na difusão de conteúdos que alteram o teor de propostas legislativas em discussão.

Nikolas no centro da ofensiva

Ao direcionar a denúncia contra Nikolas Ferreira, Hilton coloca o deputado como peça central na disseminação das interpretações que contesta. A crítica não se limita à posição contrária ao projeto, mas à forma como essa oposição vem sendo construída.

“Se Nikolas é contra a criminalização da misoginia e quer proteger os machistas e red pills, ele que admita isso publicamente e banque seu posicionamento”, afirmou. “Mas mentir sobre o teor de um texto assinado pelo presidente do Senado ultrapassa todos os limites.”

A declaração explicita o tom do confronto e indica que a disputa tende a se manter elevada tanto no campo político quanto no jurídico.

Entre o plenário e as redes

O episódio expõe um padrão que tem marcado a tramitação de projetos de maior repercussão: o debate não começa nem termina no Congresso. Ele é antecipado e amplificado nas redes sociais, onde versões do texto passam a circular antes mesmo de sua análise final pelos parlamentares.

Nesse ambiente, a disputa deixa de ser apenas sobre o conteúdo da proposta e passa a envolver a construção de narrativas capazes de mobilizar apoio ou rejeição.

Ao levar o caso à AGU, Hilton tenta reposicionar esse processo, deslocando parte da discussão para uma instância institucional e buscando estabelecer limites para a atuação de parlamentares e grupos organizados na difusão de informações sobre projetos em tramitação.

O que está em jogo agora

A denúncia não altera o andamento formal do projeto na Câmara, mas adiciona uma nova camada à disputa. Ela introduz a possibilidade de responsabilização por conteúdos que impactam o debate legislativo e amplia o alcance do conflito, que passa a ocorrer simultaneamente em três frentes: no Congresso, nas redes sociais e no campo jurídico.

Ao final, Hilton também direcionou sua crítica ao tipo de reação que vem sendo mobilizada em torno do projeto. “Se você é homem e acha que um Projeto de Lei que proíbe o discurso de ódio contra mulheres vai te impedir de falar com mulheres, o problema está no que você anda falando pras mulheres”, afirmou.

Com o acionamento da AGU, o caso deixa de ser apenas uma disputa de versões e passa a integrar um debate mais amplo sobre desinformação, responsabilidade política e os limites da atuação parlamentar no ambiente digital.

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