Tarcísio
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A promoção, pela gestão do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos), da policial militar Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, ao posto de soldado, publicada no Diário Oficial na sexta-feira (17), ocorre no momento em que ainda estão em apuração as circunstâncias da morte de Thawanna da Silva Salmázio, atingida com um tiro no peito durante uma abordagem na zona leste de São Paulo. A efetivação, que seguiu o fluxo administrativo da corporação, se deu exatamente duas semanas após o episódio e reposiciona o debate sobre critérios internos da Polícia Militar sob o governo republicano.

A policial está afastada das ruas e é investigada simultaneamente pela Corregedoria da PM e pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), responsável por apurar mortes violentas na capital. Ainda assim, a progressão de carreira não foi interrompida, o que expõe uma separação formal entre o rito administrativo e a análise de condutas em ocorrências com morte.

A abordagem policial que terminou em morte

A sequência que levou ao disparo começa de forma banal e rapidamente se transforma em confronto. Na madrugada de quinta-feira (3), em Cidade Tiradentes, Thawanna caminhava com o marido quando o braço dele encostou no retrovisor de uma viatura em patrulhamento. O veículo recua, os policiais descem e a interação passa de questionamento a discussão em poucos instantes.

Yasmin, que estava no banco do passageiro, sai da viatura enquanto o clima se deteriora. As imagens captadas pela câmera corporal do motorista mostram um ambiente de tensão crescente, sem indicação de abordagem formal estruturada. Em meio à troca de palavras, Thawanna pede para que a policial não aponte o dedo em sua direção. É nesse momento que o disparo é efetuado, atingindo o tórax da vítima.

A reação imediata dentro da própria viatura revela surpresa com o desfecho. O soldado Weden Silva Soares questiona a colega sobre o tiro, enquanto ela responde que teria reagido após um suposto tapa. A cena, registrada em áudio, passou a ser um dos principais elementos analisados na investigação.

Especialistas ouvidos por diferentes veículos apontam que a dinâmica observada se distancia de protocolos de abordagem da Polícia Militar, indicando ausência de escalonamento no uso da força e falhas na condução da ocorrência desde o primeiro contato.

Quem era Thawanna e o impacto do caso

Thawanna da Silva Salmázio vivia na região e trabalhava como ajudante-geral. Familiares afirmam que ela não tinha antecedentes criminais e que foi atingida em uma situação cotidiana, sem qualquer indicativo prévio de ameaça. A morte, confirmada por hemorragia interna aguda segundo o Instituto Médico Legal (IML), mobilizou moradores da região e ampliou a repercussão do caso para além do episódio isolado.

A forma como a ocorrência se desenrolou, partindo de um contato casual até um disparo letal em poucos minutos, passou a ser vista como um exemplo de descontrole na aplicação de protocolos operacionais.

Trinta minutos que passaram a ser centrais na investigação

Se o disparo define o momento da morte, o intervalo até o atendimento médico passou a ser um dos principais focos de questionamento. Registros de rádio, imagens de câmera corporal e reconstruções feitas a partir de dados oficiais mostram que cerca de 30 minutos separaram o tiro da chegada do resgate.

O disparo ocorre às 2h59. O pedido de socorro é imediato, mas o acionamento do Corpo de Bombeiros só acontece às 3h04. Nos minutos seguintes, há troca de viaturas designadas para o atendimento, enquanto o estado da vítima se agrava no local. O próprio policial que acompanha a cena insiste, mais de uma vez, na urgência do resgate, mencionando sinais de agravamento físico.

A ambulância que efetivamente atende a ocorrência chega às 3h30, quando Thawanna já apresentava sinais de comprometimento severo. Ela é levada ao hospital às 3h40, mas não resiste. Profissionais ouvidos pela imprensa afirmam que, em casos de hemorragia interna, a rapidez no atendimento é determinante, e que a demora pode ter sido decisiva para o desfecho.

A Ouvidoria das Polícias solicitou investigação específica sobre possível omissão de socorro, ampliando o escopo do caso para além do momento do disparo.

Promoção e estrutura da corporação sob gestão Tarcísio

No momento da ocorrência, Yasmin estava na fase final do estágio probatório e atuava há cerca de três meses em patrulhamento. Ela não utilizava câmera corporal, o que limita parte da reconstituição visual da ação. Ainda assim, cumpridos os requisitos formais do curso, foi promovida a soldado conforme previsto nas regras internas da Polícia Militar.

A Secretaria de Segurança Pública sustenta que não há previsão legal para suspensão automática de promoções em casos sob investigação, o que permite que processos administrativos avancem independentemente da apuração criminal. Esse desenho institucional, no entanto, tem sido apontado como uma das fragilidades do sistema de controle interno.

O que o caso revela sobre a política de segurança

A combinação entre abordagem mal conduzida, uso letal da força em situação de baixa complexidade e demora no resgate transforma o episódio em um ponto de inflexão no debate sobre segurança pública em São Paulo. A promoção da policial nesse contexto amplia o alcance político do caso, ao evidenciar como decisões administrativas podem se sobrepor ao timing das investigações.

O governo de Tarcísio tem sustentado uma política de reforço à atuação policial, com ênfase no enfrentamento direto à criminalidade. Casos como o de Thawanna, no entanto, expõem o custo dessa estratégia quando não acompanhada por mecanismos de controle mais rígidos sobre protocolos e responsabilização.

A investigação segue em curso, mas o episódio já produz efeitos no debate público, ao reunir em um único caso questões sobre uso da força, cadeia de comando, tempo de resposta e critérios de progressão dentro da corporação.

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