
A Justiça de São Paulo suspendeu nesta quarta-feira (27) o projeto conhecido como “Times Square paulistana”, iniciativa apoiada pela prefeitura, sob a gestão Ricardo Nunes (MDB), que previa a instalação de grandes painéis de LED e publicidade digital na região central da capital paulista. A decisão representa um revés para a gestão do prefeito Ricardo Nunes e reacende o debate sobre o futuro urbanístico do centro da cidade.
O projeto previa transformar parte da região da Avenida São João e arredores em uma área inspirada na Times Square, com forte presença de mídia digital, telões luminosos e publicidade de grande porte em edifícios históricos do centro paulistano. A proposta vinha sendo defendida pela prefeitura como estratégia de revitalização econômica, atração turística e incentivo à ocupação da região central.
A suspensão foi determinada após ações movidas por entidades urbanísticas, arquitetos e grupos ligados à preservação do patrimônio histórico. Os autores questionam impactos visuais, ambientais e legais do projeto, além de apontarem possível afronta à Lei Cidade Limpa, criada em 2006 durante a gestão de Gilberto Kassab e considerada um marco internacional de regulação da publicidade urbana.
Projeto previa flexibilização da Lei Cidade Limpa
Segundo documentos divulgados pela Prefeitura de São Paulo e reportagens publicadas por veículos nacionais, o plano previa flexibilizar regras atuais para permitir grandes estruturas publicitárias digitais em áreas específicas do centro.
A proposta se concentrava principalmente na região da República, Anhangabaú e Avenida São João, áreas consideradas estratégicas pela prefeitura para estimular circulação noturna, consumo e investimentos privados.
O projeto vinha sendo articulado em parceria com empresas do setor de mídia OOH (Out of Home), publicidade digital e entretenimento urbano. A prefeitura estimava que a iniciativa poderia atrair investimentos milionários e aumentar a arrecadação municipal por meio de concessões e exploração comercial dos espaços.
Críticos, porém, argumentam que a proposta poderia descaracterizar áreas históricas do centro e abrir precedente para desmonte gradual da Lei Cidade Limpa, considerada uma das legislações urbanísticas mais emblemáticas da cidade.
Entidades apontam risco de “poluição visual” e descaracterização histórica
Na ação judicial, entidades urbanísticas afirmam que o projeto representa risco de “poluição visual massiva” e ameaça ao patrimônio arquitetônico do centro histórico paulistano.
Arquitetos ouvidos pela imprensa compararam a proposta a uma “privatização visual” da paisagem urbana em benefício de grandes grupos econômicos ligados ao mercado publicitário.
Há também críticas sobre possíveis impactos ambientais relacionados ao consumo energético dos painéis de LED e ao aumento da luminosidade artificial em regiões residenciais do centro.
Segundo urbanistas consultados pela Folha e pelo Estadão, a Lei Cidade Limpa transformou São Paulo em referência internacional ao reduzir drasticamente a publicidade visual nas ruas e fachadas da cidade após décadas de excesso de outdoors e placas comerciais.
Agora, críticos afirmam que a flexibilização pode representar uma ruptura simbólica com esse modelo urbanístico.
Prefeitura defendia revitalização econômica do centro
A gestão Ricardo Nunes vinha apresentando o projeto como parte do plano de revitalização do centro da cidade, que inclui incentivos fiscais, novos empreendimentos imobiliários, reforço policial e estímulo à economia noturna.
Nos últimos anos, o centro paulistano passou a enfrentar aumento da degradação urbana, crescimento da população em situação de rua, fechamento de estabelecimentos comerciais e esvaziamento empresarial após a pandemia.
A prefeitura argumentava que a criação de uma área de entretenimento digital inspirada na Times Square poderia aumentar o turismo, atrair investimentos privados e estimular atividades culturais e comerciais na região.
Empresas de mídia digital também defendiam que o projeto poderia transformar São Paulo em referência latino-americana de publicidade urbana de alta tecnologia.
Debate divide urbanistas e mercado publicitário
A suspensão judicial intensificou o embate entre setores do urbanismo e o mercado de mídia exterior. Enquanto especialistas ligados à preservação urbana defendem manutenção rígida da Lei Cidade Limpa, empresas de publicidade argumentam que novas tecnologias permitem integração mais sofisticada entre mídia digital e paisagem urbana.
Nos bastidores do mercado publicitário, o projeto vinha sendo tratado como uma das maiores oportunidades recentes para expansão do DOOH (Digital Out Of Home) no Brasil. A decisão judicial ainda é provisória, mas já interrompe temporariamente o avanço da proposta até nova análise do mérito do caso.
Enquanto isso, o debate sobre o modelo de cidade desejado para São Paulo volta ao centro da disputa política, urbanística e econômica da capital paulista.