
Ela vai deixar saudades. “A maior Copa de todos os tempos” chega ao fim no domingo (19) com a final entre Argentina e Espanha. Foi um mundial de algumas polêmicas, como Trump sem saber o que significa um cartão vermelho agindo para sustar um aplicado contra os EUA, e grandes personagens, como o goleiro cabo verdiano Vozinha. Abaixo, uma relação dos grandes fatos e legados da primeira Copa do Mundo realizada em três países (EUA, México e Canadá).
Copa dos protagonistas
Mesmo aos 39 anos, Lionel Messi segue como o nome mais decisivo do torneio. O argentino é o artilheiro do campeonato, tendo marcado oito gols — mesma quantidade de Kylian Mbappé, que assim como o argentino, ainda tem um jogo a disputar. Mas a Copa também revelou o protagonismo de uma nova geração espanhola: Lamine Yamal e Mikel Oyarzabal lideraram a Espanha à final. O norueguês Haaland, os britânicos Harry Kane e Jude Bellingham foram outros destaques do torneio.
A força do futebol africano
Pela segunda edição consecutiva, o continente africano voltou a fazer barulho. Marrocos foi mais uma vez a melhor seleção africana, eliminado pela França nas quartas de final — uma queda de patamar em relação a 2022, quando chegou à semifinal, mas ainda assim reafirmando a consistência marroquina. O grande fenômeno, porém, veio de Cabo Verde: em sua primeira Copa do Mundo, a seleção foi a sensação do torneio ao levar a atual campeã Argentina à prorrogação nas oitavas, perdendo por 3 a 2 apenas nos minutos finais. O Egito também surpreendeu, chegando a abrir vantagem de 2 a 0 sobre a Argentina antes de sucumbir. Já Senegal, apesar de eliminado ainda na fase inicial do mata-mata, produziu um dos jogos mais movimentados do torneio diante da Bélgica. Esse mundial marcou, ainda, o melhor desempenho de seleções africanas na história. Apenas a Tunísia, das 10 classificadas não avançou aos 16 avos.
A épica Argentina
A defesa do título argentino segue um script caótico e apaixonante. A Argentina confirmou presença na final após superar Cabo Verde, Egito, Suíça e Inglaterra — um caminho recheado de sustos. Contra Cabo Verde, precisou da prorrogação para vencer por 3 a 2. Contra o Egito, viu-se atrás no placar por 2 a 0 e buscou a virada nos minutos finais, com gols de Cristian Romero, Messi e Enzo Fernández. Na semifinal, repetiu o roteiro dramático diante da Inglaterra: saiu perdendo com gol de Anthony Gordon, mas virou com gols de Enzo Fernández, aos 85 minutos, e Lautaro Martínez, nos acréscimos, fechando em 2 a 1. Uma trajetória de sofrimento que, ironicamente, reforça a mística em torno da Albiceleste.
A França que poderia ter sido
Talvez nenhuma seleção resuma melhor o que é ter um elenco de outro patamar sem conseguir converter isso em título. Depois de eliminar o Marrocos nas quartas de final, a França parecia caminhar para mais uma decisão, mas sucumbiu diante de uma pragmática Espanha. A crônica esportiva já se apressa em cravar os comandados de Dechamps como um dos grandes times da história sem a taça de campeão do mundo.
It’s not coming home
Mais uma vez, o roteiro se repete para os ingleses. Depois de abrir o placar contra a Argentina na semifinal com gol de Anthony Gordon, a seleção inglesa viu o adversário buscar a virada nos minutos finais e ficou, outra vez, a um passo da decisão sem conseguir cruzar a linha. É a continuidade de um padrão histórico de campanhas promissoras que terminam em frustração nas fases decisivas — o “it’s coming home” que, mais uma vez, não se confirma. A Inglaterra agora disputa o terceiro lugar contra a França.
Comemorações marcantes
A remada viking e o canto de “Wonderwall” a plenos pulmões de torcida e jogadores ingleses após cada vitória do english team ficarão cravados como grandes momentos desta Copa do Mundo.
Brasil em frangalhos
Até quisemos nos iludir e nos enchemos de esperança com a resiliência apresentada contra o Japão, mas o Brasil decepcionou, mais uma vez. Agora adentramos oficialmente o maior hiato sem um título de mundial desde que conquistamos o primeiro, em 1958. Dos desacertos da escalação de Ancelotti à falta de raça nos momentos decisivos, os lamentos são o que ficam da participação brasileira na Copa.
Recepção às novas regras da Fifa
Este mundial foi também um laboratório de mudanças regulamentares. Entre as principais novidades: o goleiro passou a ter apenas 8 segundos para cobrar o tiro de meta, sob pena de escanteio; o VAR passou a poder revisar o segundo cartão amarelo; e foi criada a chamada “Lei Vini Jr.”, que pune com vermelho o jogador que cobrir a boca durante confronto com adversário em situação de ofensa discriminatória. Também houve mudança no critério de desempate — o confronto direto passou a ser o primeiro critério na fase de grupos, no lugar do saldo de gols — e uma nova regra para zeragem de cartões, que passaram a ser zerados após o fim da fase de grupos e novamente após as quartas de final. A famigerada pausa para hidratação motivou debates acalorados sobre mudança nas características da partida.

Grandes jogos
- Bélgica 3 x 2 Senegal: duelo movimentado nas oitavas, decidido nos minutos finais.
- Argentina 3 x 2 Egito: os argentinos perdiam por 2 a 0 até os 34 minutos do segundo tempo e buscaram a virada em um dos jogos mais dramáticos da competição.
- Argentina 2 x 1 Inglaterra: a semifinal que definiu o finalista sul-americano, com virada nos acréscimos.
- Argentina 3 x 2 Cabo Verde: o susto inesperado diante da sensação africana.
- Portugal 2 x 1 Croácia: embate equilibrado nos 16-avos de final, decidido por um fio de cabelo (literalmente)
- Equador 2 x 1 Alemanha: um dos melhores jogos da fase de grupos, com os equatorianos surpreendendo os alemães e garantido uma improvável, àquela altura, classificação à fase 16 avos
Balanço do formato com 48 seleções
A estreia do formato ampliado gerou avaliações mistas. A ideia inicial da Fifa era de 16 grupos com três seleções cada, mas o risco de combinações de resultados levou a entidade a repensar a proposta e adotar 12 grupos de quatro times, com os dois primeiros de cada chave, mais os oito melhores terceiros colocados, avançando a uma nova fase inédita: os 16-avos de final, criada justamente para acomodar o maior número de classificados. Do ponto de vista técnico, o aumento de seleções trouxe também maior disparidade em alguns grupos — com goleadas expressivas, como a vitória da Alemanha por 7 a 1 sobre Curaçao — ao mesmo tempo em que produziu histórias como a de Cabo Verde, que jamais teria a chance de brilhar num Mundial de 32 equipes. Na avaliação geral, o público respondeu bem ao maior número de jogos e à ampliação da fase eliminatória, mas o debate sobre o desgaste físico dos jogadores e a diluição do nível técnico em alguns confrontos da fase de grupos deve seguir pautando a discussão sobre o formato daqui para a próxima edição.