Meninos mimados não vão ao mundial

A última data-fifa que antecede a Copa do Mundo de 2026 nos reservava algumas demonstrações de que o futebol é uma das maiores invenções da humanidade. Não estou falando da derrota com requintes de crueldade de nosso selecionado para a França, mostrando que estamos a anos-luz quanto a construção de time e competitividade. Também não me refiro aos enfadonhos amistosos caça níqueis da Argentina que mostram sua completa acomodação e excessiva festividade após o tricampeonato no Catar em 2022.

Refiro-me aqui ao conjunto de surpresas e tensões que poderiam vir a acontecer nas rodadas finais de repescagem, seja a bela campanha da República Democrática do Congo, a saga do Iraque rumo ao jogo decisivo contra a Bolívia ou mesmo a saga italiana ao tentar retornar ao certame quadrienal depois de duas edições com ausência (2018 e 2022), ou com eliminações vexatórias na primeira fase (2010 e 2014). É sobre essa última que quero falar em poucas linhas, sem grandes rodeios. Mas, faço aqui uma escolha, não quero me reportar ao tatiquês, ou a obviedade como a crise do futebol italiano, vou retomar uma fala do atual treinador da azzurra Gennaro Gattuso.

O treinador do selecionado europeu após sofrer uma goleada humilhante, em Milão (San Siro), não tentou se desculpar sobre o péssimo futebol apresentado, ou encontrar respostas pela difícil situação que a partir de então seus comandados se encontravam nas Eliminatórias para a Copa do Mundo. O ex-volante do Milan proferiu palavras absurdas quanto ao número de vagas oferecidas para o continente africano em 2026: “Em 1994, havia duas seleções africanas na copa e agora oito…não vou acrescentar mais nada”.

A Fifa, após a Copa de 2022 já cogitava um aumento no número de seleções participantes, não era de pronto uma decisão voltada a padrões técnicos ou mesmo numa ampliação de parâmetros de maior paridade de países, pois até 2022 o continente africano tinha somente 5 participantes, tornando suas eliminatórias uma completa batalha campal e proporcionando que grandes e tradicionais seleções do continente ficassem de fora durante períodos muito longos, a exemplo de Marrocos e Egito ou mesmo em 2006 na Alemanha, onde Nigéria e Camarões cederam vagas a outros países de África como, Angola e Togo, que desde então nunca conseguiram mais disputar o torneio.

O acréscimo no número de participantes não tinha por objetivo garantir maior participação de um território tão plural e extenso territorialmente como África, mas ampliar índices de audiência, maior quantidade de patrocinadores ao facilitar o retorno da participação da própria Itália e conter possíveis surpresas nas eliminatórias como aconteceu com os EUA quando é derrotado pelo Panamá e fica de fora do mundial de 2018 na Rússia. Embora essa entidade tenha tais interesses escusos, vale lembrar que a realidade se constitui de contradições, recuos e avanços e o aumento a 48 seleções já em 2026 proporcionou aos países de África uma mudança significativa, passando de 5 para 9 vagas e tendo mais uma na repescagem intercontinental, com a possibilidade de 10 vagas. Isso ainda é muito pouco quando falamos de proporcionalidade, haja vista a Europa continua sendo o continente com maior número de participantes com 16 vagas, sendo 12 diretas e 4 via repescagem doméstica, ao contrário da Ásia, África e Américas.

Gattuso utilizou-se do colonialismo e da violência para deslegitimar povos africanos, os associando a uma inferioridade técnica e ligando a Europa a dimensão do intelecto, da reflexão da elevação cognitiva da Copa do Mundo. Sua mediocridade demonstrou-se da forma mais tacanha, mesmo com os privilégios proporcionados pela Fifa aos europeus, a Itália padeceu mais uma vez. A poucos dias atrás ganhou o primeiro desafio na repescagem, ao despachar a Irlanda do Norte por 2 a 0. Faltava um jogo, vencer a Bósnia e retornar ao maior evento de futebol do mundo após duas ausências. Começou bem, aos 15 minutos Moise Kean abre o placar para a Azzurra, aos 34 do segundo tempo vem o empate e ao fim o sonho acaba com uma dramática derrota nos penais. Derrota essa que causa um prejuízo de 30 milhões de euros a Federação Italiana.

 Após a derrota, a fala colonialista de seu técnico retorna a ordem do dia, cobrado pela história, preso por sua própria armadilha, tendo em vista que sua fala racista não passará impune pelo crivo da história e que além disso ficará marcado por não levar sua seleção a uma Copa ampliada. A Itália fracassa sobre suas próprias incompetências, mas como um filho mimado criado sobre regalias e a promessa que todo o mundo seria seu, ao se deparar com a frieza do mundo real, Gattuso não assume sua responsabilidade, age como um mimado que sempre põe a culpa do fracasso no outro, excluído, violentado, mas que alcançou o mínimo de reparação.

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