
A Rocinha voltou a chamar atenção nas redes sociais e no cenário cultural do Rio de Janeiro após a transformação da Via Ápia, principal rua da comunidade, em um enorme mural a céu aberto inspirado na Copa do Mundo de 2026. A intervenção artística, coordenada pelo artista visual Pégaso, tomou conta do chão da via com desenhos gigantes, cores da Seleção Brasileira e personagens ligados ao cotidiano da favela.
As imagens aéreas da pintura viralizaram nos últimos dias pela dimensão da obra e pelos detalhes espalhados ao longo da rua, considerada um dos principais corredores comerciais e culturais da Rocinha. O projeto resgatou uma tradição histórica das Copas do Mundo no Brasil: a pintura coletiva de ruas, calçadas e bandeirinhas como forma de celebração popular do futebol.
Segundo organizadores e moradores ouvidos pela imprensa carioca, mais de 80 voluntários e cerca de 35 artistas e pintores locais participaram da ação, concluída em menos de 24 horas. O trabalho cobriu mais de mil metros quadrados da Via Ápia e mobilizou moradores desde a madrugada até o fim do dia.
Obra mistura futebol, identidade local e arte urbana
O mural coordenado por Pégaso retrata uma jogadora vestindo as cores da Seleção Brasileira e incorpora elementos ligados à identidade visual da Rocinha e da cultura carioca. A proposta buscou unir o clima da Copa do Mundo ao cotidiano da favela, utilizando personagens negros, moradores locais, crianças, artistas e referências culturais da comunidade.
Além da grande figura central ligada ao futebol, a pintura também inclui símbolos do Rio de Janeiro, cachorros “caramelo”, elementos de graffiti e referências à convivência comunitária típica das ruas da Rocinha.
Moradores envolvidos no projeto afirmam que a ideia foi produzir uma obra que representasse pertencimento, coletividade e orgulho da comunidade. Para muitos jovens da região, esta foi a primeira experiência participando de pinturas coletivas de rua ligadas à Copa do Mundo, tradição muito forte em décadas anteriores e que vinha perdendo espaço nos últimos anos.
A grafiteira e arte-educadora Malu Vibe, uma das participantes do projeto, afirmou em entrevistas que a proposta também teve caráter pedagógico e social ao envolver juventude local em um processo coletivo de ocupação cultural do espaço urbano.
Via Ápia virou ponto turístico e cenário para vídeos
Após a divulgação das imagens nas redes sociais, a Via Ápia passou a receber aumento no fluxo de visitantes, influenciadores, turistas e produtores de conteúdo interessados em registrar o mural.
Guias turísticos da Rocinha relataram crescimento da procura por visitas à região desde a conclusão da pintura. Segundo moradores, o espaço passou a funcionar como um ponto de encontro para crianças, famílias e rodas culturais, além de cenário para vídeos e fotografias compartilhados na internet.
O projeto também impulsionou pequenos negócios locais, vendedores ambulantes, comerciantes e criadores de conteúdo da comunidade, que passaram a aproveitar o aumento do movimento na região.
Moradores afirmam que a repercussão nacional da obra ajudou a mostrar uma imagem da Rocinha ligada à arte, cultura e criatividade, em contraste com a cobertura tradicionalmente focada em violência e operações policiais.
Resgate de tradição histórica das Copas no Brasil
A pintura das ruas durante a Copa do Mundo se tornou uma tradição popular brasileira especialmente a partir dos anos 1970, quando bairros e comunidades passaram a decorar ruas com bandeirinhas, desenhos e cores da Seleção.
Nas últimas décadas, porém, essa prática perdeu força em muitas cidades brasileiras, principalmente após mudanças urbanas, crescimento da violência urbana e redução das mobilizações coletivas de bairro.
A iniciativa da Rocinha acabou sendo vista como um resgate simbólico dessa cultura popular ligada ao futebol e à ocupação afetiva das ruas brasileiras durante grandes torneios.
Especialistas em cultura urbana apontam que o projeto também dialoga com uma tradição histórica do Rio de Janeiro de utilizar arte pública como elemento de identidade territorial e transformação visual da cidade, prática que ganhou projeção internacional em obras como o mural “Etnias”, do artista Eduardo Kobra, criado durante as Olimpíadas de 2016.
Copa de 2026 já começa a mobilizar comunidades
Embora a Copa do Mundo de 2026 aconteça apenas entre junho e julho, comunidades e bairros brasileiros já começam a entrar no clima do torneio, que será realizado em conjunto por Estados Unidos, México e Canadá.
Na Rocinha, moradores afirmam que a expectativa é transformar a Via Ápia em um grande ponto de encontro durante os jogos da Seleção Brasileira, reunindo telões, festas populares e atividades culturais.
A repercussão da pintura também começou a inspirar outras comunidades cariocas a retomarem a tradição das ruas decoradas para a Copa.
Enquanto isso, o mural da Rocinha segue viralizando nas redes sociais como uma das primeiras grandes manifestações populares brasileiras ligadas ao Mundial de 2026.