
O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, criticou nesta segunda-feira (18) a proposta que prevê o fim da escala 6×1 e a redução da jornada semanal de trabalho de 44 para 40 horas no Brasil. Durante a abertura da APAS Show 2026, feira do setor supermercadista realizada na capital paulista, Tarcísio afirmou que mudanças na legislação trabalhista precisam priorizar também os interesses dos empregadores para evitar perda de renda e aumento da informalidade.
“Não adianta achar que vai cuidar do trabalhador sem cuidar do empregador. Quem está falando hoje de desoneração do empregador?”, declarou o governador diante de empresários e representantes do setor supermercadista.
A fala ocorre em um momento de avanço da proposta defendida pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva e por centrais sindicais para redução da jornada semanal e revisão da escala 6×1, modelo considerado por movimentos trabalhistas como um dos principais símbolos de precarização das relações de trabalho no país.
Debate opõe setor empresarial e movimentos trabalhistas
Tarcísio afirmou que existe consenso sobre a necessidade de melhorar condições de trabalho, mas argumentou que mudanças “mal calibradas” poderiam gerar efeitos negativos sobre emprego e renda.
Segundo o governador, setores intensivos em mão de obra, como supermercados, comércio e serviços, poderiam enfrentar aumento de custos operacionais caso a jornada seja reduzida sem compensações fiscais ou tributárias.
A proposta em discussão no Congresso prevê redução gradual da carga horária semanal para 40 horas e revisão da escala tradicional de seis dias trabalhados para um de descanso. O tema se tornou uma das principais bandeiras do governo Lula junto às centrais sindicais e ganhou força política após o avanço do debate sobre saúde mental, burnout e precarização do trabalho pós-pandemia.
Nas últimas semanas, entidades empresariais passaram a pressionar parlamentares contra a mudança. Associações do comércio e da indústria afirmam que a medida pode elevar custos trabalhistas, pressionar inflação e ampliar informalidade em setores com baixa margem operacional.
Pauta é prioridade para Governo Lula
O debate sobre o fim da escala 6×1 ganhou novo impulso após acordo político entre governo federal e lideranças da Câmara para acelerar discussões sobre redução da jornada de trabalho. Na semana passada, integrantes do Palácio do Planalto passaram a defender publicamente a possibilidade de construção gradual de uma semana de trabalho mais curta no Brasil.
O deputado federal Márcio Jerry, vice-líder do governo na Câmara, afirmou recentemente que a escala atual “retira tempo de vida de milhões de brasileiros” e passou a defender mobilização nacional pela proposta.
Centrais sindicais argumentam que a redução da jornada já foi adotada em diferentes países sem provocar colapso econômico e sustentam que o avanço tecnológico e a automação aumentaram produtividade sem conversão proporcional em qualidade de vida para trabalhadores.
Levantamentos do Dieese apontam que trabalhadores submetidos à escala 6×1 apresentam índices maiores de exaustão física, adoecimento mental e dificuldade de convivência familiar.
Declaração reforça aproximação de Tarcísio com setor empresarial
A fala de Tarcísio ocorreu diante da APAS Show, maior evento supermercadista do país e tradicional espaço de interlocução entre governos e grandes grupos empresariais do varejo.
Nos últimos meses, o governador paulista passou a reforçar agendas ligadas ao empresariado em meio às articulações nacionais da direita para 2026. O ex-ministro de Jair Bolsonaro também intensificou críticas indiretas às pautas trabalhistas do governo Lula, tentando consolidar imagem de gestor alinhado ao mercado e ao setor produtivo.
A declaração desta segunda-feira também amplia o distanciamento entre Tarcísio e setores sindicais, que vêm acusando governadores ligados à direita de priorizar interesses empresariais em debates sobre relações de trabalho.
Nas redes sociais, movimentos trabalhistas passaram a reagir à fala do governador afirmando que o discurso repete argumentos utilizados historicamente contra reduções de jornada adotadas no passado, como a própria fixação das 44 horas semanais na Constituição de 1988.
Enquanto isso, o debate sobre o fim da escala 6×1 deve se intensificar nas próximas semanas no Congresso Nacional, tornando-se um dos principais embates entre governo, empresários e oposição na agenda econômica e trabalhista de 2026.