
O presidente dos EUA, Donald Trump, declarou nesta quarta-feira (8) que considera encerrado o acordo provisório de cessar-fogo com o Irã, em meio à mais grave escalada militar entre os dois países desde o início do conflito. A declaração foi feita em Ancara, na Turquia, durante a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), poucas horas depois de forças americanas lançarem novos ataques contra alvos iranianos e de Teerã responder com bombardeios contra bases militares dos EUA no Bahrein e no Kuwait.
“Para mim, acho que acabou. No que me diz respeito, isso é apenas perda de tempo”, afirmou Trump, acrescentando que não pretende impedir a continuidade das negociações entre representantes dos dois países, mas que não acredita que elas produzirão resultados. “Eles podem conversar, mas acho que estão perdendo tempo. Eles são lixo, são pessoas doentes, são governados por pessoas doentes e são pessoas cruéis e violentas. E se tivessem uma arma nuclear, a usariam”.
Os EUA bombardearam mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa aérea, redes de comando e controle, radares costeiros, sistemas de vigilância, mísseis superfície-ar, mísseis de cruzeiro antinavio, locais de lançamento de drones e mais de 60 pequenas embarcações utilizadas pela Guarda Revolucionária. Segundo o Comando Central dos EUA (Centcom), a operação teve como objetivo impor um alto custo ao Irã pelos ataques contra navios comerciais que transitavam pelo Estreito de Ormuz. A imprensa estatal iraniana informou explosões em vários locais, incluindo Bandar Mahshahr, onde um integrante da Guarda Revolucionária foi morto. Também houve relatos de ataques contra Bushehr, onde fica o complexo da usina nuclear iraniana.
As embarcações iranianas têm sido fundamentais para ameaçar navios na rota, por onde passava um quinto de todo o petróleo e gás natural comercializados no mundo antes da guerra. A capacidade do Irã de paralisar a navegação na hidrovia durante o conflito revelou-se sua maior vantagem estratégica, à medida que o aumento dos preços de energia, fertilizantes e alimentos pressionava os EUA a fechar um acordo.
O Ministério das Relações Exteriores do Irã afirmou que os ataques americanos e a revogação da autorização para venda de petróleo tornaram “ineficaz” o acordo firmado entre os dois países no mês passado. A decisão de Washington, disse, viola o entendimento que previa um período de 60 dias de negociações para um acordo permanente e responsabilizou os EUA pelas consequências.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Qalibaf, também acusou Washington de descumprir o acordo, citando os novos bombardeios, o restabelecimento das restrições ao petróleo iraniano, violações dos “ajustes” promovidos por Teerã no Estreito de Ormuz e a continuidade dos ataques israelenses contra o Líbano. Em publicação no X, ele afirmou que “a era da intimidação e da extorsão acabou”: “Isso não leva a lugar nenhum. Nós não recuamos”, escreveu.
O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, prometeu “ações decisivas” em resposta às medidas americanas. O Ministério iraniano afirmou ainda que adotará todas as medidas consideradas necessárias para proteger os interesses e a segurança nacional do país.
O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, afirmou antes da cúpula da aliança que os novos ataques americanos eram “absolutamente necessários”. Já a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, classificou como “inaceitáveis” os ataques iranianos e alertou que as trocas de bombardeios complicam ainda mais negociações já delicadas.
As declarações de Trump e a nova troca de ataques repercutiram imediatamente nos mercados internacionais. O petróleo Brent chegou a subir mais de 6%, alcançando cerca de US$ 79 por barril em Londres, enquanto bolsas de valores recuaram. Dados do setor marítimo mostraram que pelo menos quatro navios petroleiros e de gás desistiram de atravessar a hidrovia após a escalada das hostilidades.