
Há vírus que entram no organismo, provocam uma doença e desaparecem. O vírus da catapora, porém, prefere permanecer. Depois que as manchas somem, o varicela-zóster se instala nos nervos e pode permanecer silencioso durante décadas. Em algumas pessoas, volta a se manifestar muitos anos depois na forma de herpes-zóster, causando bolhas, ardor e dores que podem persistir mesmo após a recuperação da pele.
A vacina contra a doença foi desenvolvida para impedir essa reativação. Pesquisas recentes, contudo, levantaram uma possibilidade inesperada: a imunização também pode estar associada a um menor risco de demência.
A evidência mais forte surgiu no País de Gales. Em 2013, o governo criou um programa de vacinação contra o herpes-zóster com um critério baseado na data de nascimento. Pessoas nascidas antes de 2 de setembro de 1933 não tinham direito à vacina; as nascidas depois passaram a ser elegíveis.
A regra criou uma espécie de experimento natural. Pessoas com poucos dias de diferença de idade, e potencialmente semelhantes em vários aspectos, ficaram em lados opostos da política de vacinação. O estudo acompanhou 282.541 adultos sem diagnóstico prévio de demência. Ao longo de sete anos, aqueles que receberam a vacina apresentaram uma redução de 3,5 pontos percentuais no risco de um novo diagnóstico — uma queda relativa de 20%, mais evidente entre mulheres.
Publicado na revista Nature, o estudo não foi um ensaio clínico tradicional, mas seu desenho reduziu uma limitação frequente: a possibilidade de que pessoas vacinadas sejam, por natureza, mais cuidadosas com a própria saúde.
A hipótese ganhou reforço na Austrália, onde outro programa baseado em data de nascimento encontrou resultados semelhantes. Estudos com uma vacina recombinante mais recente também apontaram menor risco de demência, embora as estimativas tenham variado conforme o grupo de comparação.
Ainda é cedo para falar em uma vacina contra Alzheimer. Os estudos avaliaram principalmente demência por qualquer causa, e os mecanismos envolvidos permanecem incertos. Uma possibilidade é que a prevenção da reativação do vírus reduza inflamações e danos aos vasos e tecidos cerebrais. Outra é que a vacina modifique a resposta do sistema imunológico ao longo do tempo.
A imunização, portanto, não deve ser indicada hoje especificamente para prevenir demência. Sua função comprovada continua sendo a prevenção do herpes-zóster e de complicações como a dor persistente.
Mas a possibilidade amplia uma compreensão cada vez mais importante: a saúde do cérebro não depende apenas do que acontece dentro da cabeça. Envelhecimento, inflamação, vasos sanguíneos, sono, metabolismo e infecções podem participar da história da memória. E talvez a proteção cognitiva comece muito antes do primeiro esquecimento.