Trump
Ricardo Stuckert

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou nesta terça-feira (20) que convidou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para integrar o chamado Conselho da Paz, iniciativa anunciada por Washington para discutir a reconstrução e a governança da Faixa de Gaza no pós-conflito. Ao comentar o convite, Trump fez um elogio direto ao presidente brasileiro.

“Eu gosto dele. Espero que ele tenha um grande papel”, afirmou Trump, acrescentando que Lula é “um líder respeitado internacionalmente” e que o Brasil “pode contribuir para a estabilidade e a paz”.

Como funciona o Conselho da Paz de Trump

Segundo Trump, o conselho foi concebido como um núcleo político restrito, com atuação paralela aos fóruns multilaterais tradicionais, voltado à coordenação da reconstrução de Gaza, à definição de arranjos administrativos e à mobilização de recursos internacionais.

O grupo seria presidido pelo próprio Trump e, em sua formação inicial, inclui nomes diretamente ligados ao governo norte-americano e ao setor financeiro internacional, como o enviado especial de política externa Steve Witkoff, o vice-conselheiro de segurança nacional Robert Gabriel, o genro do presidente Jared Kushner, o investidor Marc Rowan e o presidente do Banco Mundial, Ajay Banga.

Trump afirmou que o modelo busca “rapidez e pragmatismo” e criticou o que chamou de lentidão das instituições multilaterais. “Precisamos de algo que funcione na prática”, disse.

Países convidados e desenho internacional

Além do Brasil, diversos países foram convidados a integrar o conselho, entre eles Argentina, Canadá, Paraguai, Turquia e Egito. A lista combina aliados estratégicos dos Estados Unidos, países com influência regional e governos com histórico de interlocução no Oriente Médio.

A composição, no entanto, tem gerado críticas por concentrar poder decisório em Washington e por não deixar claro o papel de representantes palestinos ou de organismos multilaterais no processo.

França sinaliza recusa e Macron entra no debate

O convite também chegou à França, mas o governo francês já indicou que Emmanuel Macron não deverá participar do conselho. Um porta-voz do Palácio do Eliseu afirmou que a França vê com reservas a criação de um órgão paralelo sem coordenação formal com a Organização das Nações Unidas.

Segundo apuração diplomática, Lula deve tratar do tema diretamente com Macron nos próximos dias. A conversa é vista como estratégica para alinhar posições e avaliar os impactos do conselho sobre o equilíbrio diplomático europeu e a credibilidade internacional do processo de paz.

Resistência no governo brasileiro

No Brasil, o convite foi recebido com cautela. Auxiliares de Lula avaliam que, no formato atual, o conselho atribui poder excessivo ao presidente dos Estados Unidos e pode comprometer a tradição diplomática brasileira, baseada no multilateralismo e no fortalecimento das instituições internacionais.

A leitura no Planalto é que a participação do Brasil só faria sentido se houvesse garantias de equilíbrio decisório, transparência e respeito ao direito internacional, além de um papel claro para os palestinos na definição do futuro do território.

O elogio público de Trump a Lula é interpretado como um gesto político com duplo objetivo: reconhecer o protagonismo recente do Brasil no cenário internacional e, ao mesmo tempo, ampliar a legitimidade do Conselho da Paz ao associá-lo a lideranças com credibilidade fora do eixo Washington–Europa.

Apesar disso, diplomatas brasileiros avaliam que a adesão ao conselho envolve riscos diplomáticos, sobretudo em um contexto de tensões entre Estados Unidos e Europa e de críticas crescentes à condução unilateral de iniciativas internacionais por Washington.

Decisão de Lula em aberto

Até o momento, Lula não se manifestou publicamente sobre o convite nem sobre os elogios feitos por Trump. A decisão final deverá passar por consultas diplomáticas, avaliação política e diálogo com parceiros estratégicos, especialmente europeus.

O debate em torno do Conselho da Paz expõe, mais uma vez, a disputa entre modelos de governança internacional e coloca o Brasil diante de uma escolha delicada entre protagonismo político e preservação de sua tradição diplomática.

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