
O senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta sexta-feira (15) que novos áudios, mensagens ou vídeos relacionados ao caso envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro ainda podem vir a público, mas tentou minimizar os impactos políticos da crise ao afirmar que “não vai ter surpresinha”. A declaração foi dada em entrevista à CNN Brasil em meio ao desgaste provocado pelas revelações divulgadas nesta semana pelo Intercept Brasil sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória política de Jair Bolsonaro.
“Pode ser que apareça outro vídeo, outro áudio, outra mensagem. Não vai ter surpresinha”, declarou o senador à CNN. Segundo Flávio, todo o conteúdo relacionado às conversas com Vorcaro estaria ligado exclusivamente à tentativa de obtenção de patrocínio privado para o filme sobre o ex-presidente.
A fala ocorre após uma semana de forte pressão política sobre o núcleo bolsonarista. As reportagens publicadas pelo Intercept Brasil revelaram mensagens privadas, áudios e comprovantes financeiros apontando negociações milionárias entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar a produção cinematográfica. Segundo os documentos divulgados, o banqueiro teria prometido cerca de US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 134 milhões) para bancar o longa-metragem, com parte dos recursos já transferida antes da prisão de Vorcaro e da liquidação do Banco Master.
Crise provocou reação de aliados e empresários
O caso passou a gerar desconforto dentro do próprio campo conservador porque Daniel Vorcaro se tornou um dos principais personagens do escândalo envolvendo o colapso do Banco Master. O banqueiro foi preso em novembro de 2025 acusado de operar esquema que teria provocado rombo estimado em R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Dias depois, o Banco Central decretou a liquidação da instituição financeira.
As revelações envolvendo Flávio Bolsonaro ampliaram a crise dentro da direita e provocaram reações públicas de antigos aliados do senador. Na quarta-feira (13), o ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema classificou a relação entre Flávio e Vorcaro como “imperdoável” e afirmou que o episódio representa “um tapa na cara dos brasileiros de bem”.
A crise também passou a gerar preocupação no empresariado ligado à direita. Reportagem publicada pela CNN Brasil mostrou que empresários reunidos em Nova York durante a Brazil Week passaram a tratar reservadamente o episódio como potencial “fim da campanha” presidencial de Flávio Bolsonaro em 2026. Segundo relatos obtidos pela emissora, parte do mercado passou a monitorar nomes como Romeu Zema e Ronaldo Caiado como alternativas dentro do campo conservador.
Flávio tenta desvincular caso de corrupção
Na entrevista à CNN, Flávio Bolsonaro insistiu que não houve uso de dinheiro público nem favorecimento político nas tratativas com Vorcaro. O senador afirmou que conheceu o banqueiro apenas em dezembro de 2024, quando, segundo ele, “não existiam acusações públicas” contra o empresário. “O que houve foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do pai”, afirmou o senador, repetindo argumento já utilizado em nota divulgada na quarta-feira.
Flávio também negou ter recebido vantagens pessoais ou intermediado negócios junto ao governo federal em favor de Vorcaro. Segundo ele, os contatos ocorreram apenas para tratar do financiamento do longa-metragem.
Apesar da tentativa de conter danos, o caso passou a gerar novas frentes de investigação e pressão judicial sobre o entorno bolsonarista. O STF já investiga repasses de emendas parlamentares ligados a entidades associadas à produção do filme, enquanto parlamentares da oposição passaram a defender aprofundamento das apurações sobre possíveis conexões entre recursos privados, estruturas públicas e financiamento da obra.
Caso também atinge Mário Frias
A crise envolvendo “Dark Horse” também atingiu o deputado federal Mário Frias, produtor-executivo e roteirista do longa. O Supremo Tribunal Federal tenta há quase dois meses intimar o parlamentar para prestar esclarecimentos sobre emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produtora responsável pelo filme.
Segundo investigação conduzida pelo ministro Flávio Dino, organizações associadas ao grupo empresarial responsável pela produção receberam cerca de R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares de deputados do PL. Frias nega irregularidades e afirma que o filme possui “100% de capital privado”.
Mesmo assim, a revelação dos áudios envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro ampliou a dimensão política do caso e passou a conectar o projeto cinematográfico diretamente ao escândalo financeiro do Banco Master.
Núcleo bolsonarista teme novos vazamentos
Nos bastidores do PL, aliados de Flávio Bolsonaro passaram a demonstrar preocupação com a possibilidade de novos vazamentos relacionados às conversas entre o senador e Daniel Vorcaro. Segundo apuração da CNN Brasil, integrantes do partido avaliam que a crise ainda pode produzir novos desgastes caso surjam outros áudios ou mensagens envolvendo financiamento da produção cinematográfica.
A preocupação aumentou porque parte das conversas divulgadas até agora demonstra proximidade pessoal entre Flávio e o banqueiro. Em uma das mensagens reveladas pelo Intercept, o senador escreveu a Vorcaro um dia antes da prisão do empresário: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente.”
Mesmo diante da crise, Flávio Bolsonaro afirmou à CNN que continuará mantendo agendas políticas e não pretende rever sua pré-candidatura presidencial para 2026.