
Novos documentos revelados pelo Intercept Brasil ampliaram nesta sexta-feira (15) a dimensão política e financeira do escândalo envolvendo o filme “Dark Horse”, cinebiografia inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo a investigação publicada pelo veículo, o deputado cassado Eduardo Bolsonaro possuía poder direto sobre a gestão financeira e estratégica da produção cinematográfica, contrariando declarações feitas por ele nas redes sociais de que teria apenas cedido “direitos de imagem” para o projeto.
A reportagem, assinada pelos jornalistas Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Paulo Motoryn, afirma que Eduardo Bolsonaro atuava oficialmente como produtor-executivo do filme ao lado do deputado federal Mário Frias. Um contrato obtido pelo Intercept mostra que ambos tinham atribuições ligadas diretamente ao financiamento, captação de recursos, orçamento e tomada de decisões sobre o longa-metragem.
O documento é datado de novembro de 2023 e foi assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024. Nele, a produtora americana GoUp Entertainment aparece como responsável pela produção do projeto, inicialmente chamado “O Capitão do Povo”, nome que depois seria substituído por “Dark Horse”.
Segundo o contrato, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias e a GoUp teriam participação conjunta em “considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme”, além de responsabilidade sobre “preparação de informações e documentação para investidores” e “assistência na identificação de recursos de financiamento”, incluindo patrocínio, incentivos fiscais e investidores privados.
Mensagens mostram Eduardo articulando envio de dinheiro aos EUA
A investigação também revelou mensagens privadas que colocam Eduardo Bolsonaro no centro das negociações financeiras envolvendo recursos enviados aos Estados Unidos para viabilizar o filme. Segundo o Intercept, uma troca de mensagens de março de 2025 mostra Eduardo discutindo estratégias para transferência internacional de dinheiro ligado ao projeto.
As conversas envolvem o empresário Thiago Miranda, que atuava como intermediador entre o banqueiro Daniel Vorcaro, a família Bolsonaro e Mário Frias.
Em uma das mensagens obtidas pelo Intercept, Eduardo afirma: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo.” Na sequência, ele acrescenta: “Será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses.”
Depois, Eduardo sugere acelerar o envio do dinheiro: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”
Segundo o Intercept, as mensagens indicam que Eduardo atuava diretamente na articulação financeira internacional do projeto, inclusive sugerindo mecanismos para agilizar transferências de recursos aos Estados Unidos.
A data das conversas coincide com o período em que Eduardo Bolsonaro anunciou licença do mandato parlamentar para permanecer nos EUA e intensificar articulações políticas internacionais em defesa do bolsonarismo.
Documento trata Eduardo como “financiador”
Outro documento obtido pela reportagem amplia ainda mais o envolvimento financeiro do deputado cassado no projeto cinematográfico. Trata-se de uma minuta de aditivo contratual de fevereiro de 2024 que classifica Eduardo Bolsonaro como “financiador” da produção.
O texto afirma que Eduardo “se compromete a financiar parcialmente a produção cinematográfica” e autoriza o uso de recursos financeiros investidos por ele no projeto. Embora o Intercept afirme não haver confirmação de assinatura definitiva desse aditivo, o documento contradiz diretamente a versão apresentada pelo deputado em suas redes sociais.
Na quinta-feira (14), Eduardo havia afirmado no Instagram que “não é dono do filme” e que sua participação teria se limitado à cessão de direitos de imagem.
Segundo a investigação, porém, os contratos mostram que Eduardo e Mário Frias possuíam poder de decisão conjunta sobre orçamento, captação de recursos, financiamento e estrutura financeira do longa.
Caso envolve fundo ligado a advogado de Eduardo Bolsonaro
A reportagem do Intercept também aponta que parte dos recursos negociados por Flávio Bolsonaro junto a Daniel Vorcaro teria sido direcionada para um fundo sediado no Texas e controlado por aliados próximos de Eduardo Bolsonaro.
Segundo os documentos analisados pelo veículo, transferências foram realizadas pela Entre Investimentos e Participações para o fundo Havengate Development Fund LP, registrado no Texas.
O fundo possui ligação direta com o advogado Paulo Calixto, responsável pelo processo migratório de Eduardo nos Estados Unidos. Documentos societários mostram que Calixto aparece como administrador do fundo e integrante de sua estrutura societária.
Outro nome citado na investigação é Altieris Santana, apontado como integrante do quadro societário ligado ao Havengate Development Fund.
Segundo o Intercept, mensagens revelam que Eduardo chegou a indicar Altieris Santana como pessoa disponível para reuniões presenciais relacionadas às operações financeiras do filme.
Filme previa “oportunidade de imigração” para investidores
Os documentos obtidos pelo Intercept também revelam detalhes do plano de negócios de “Dark Horse”, cujo orçamento estimado variava entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões — valor considerado excepcionalmente elevado para padrões do cinema brasileiro.
Segundo a reportagem, a estratégia financeira previa venda de 40 cotas de investimento de US$ 500 mil cada, totalizando US$ 20 milhões em captação privada.
Investidores mais robustos receberiam benefícios especiais. Quem investisse US$ 1 milhão teria direito a assento no conselho de produção do filme, podendo influenciar decisões criativas e estratégicas da obra.
Já o pacote mais caro custava US$ 1,1 milhão e incluía uma “oportunidade de imigração” para os Estados Unidos. Segundo o plano de negócios revelado pelo Intercept, o projeto era apresentado como caminho para obtenção de Green Card norte-americano por meio de investimento vinculado à produção audiovisual.
O material também projetava receitas globais entre US$ 45 milhões e US$ 100 milhões, dependendo do desempenho do filme em cinemas e plataformas de streaming.
Segundo o plano financeiro, após devolução do capital aos investidores e pagamento de prêmio de 20% sobre os aportes, o lucro líquido restante seria dividido igualmente entre investidores e produtores — o que incluiria Eduardo Bolsonaro e Mário Frias.
STF e PF ampliam investigações
A publicação da nova reportagem ocorreu no mesmo dia em que o ministro Flávio Dino determinou abertura de apuração preliminar para investigar possível direcionamento de emendas parlamentares a projetos culturais ligados ao filme.
O STF também tenta há quase dois meses intimar Mário Frias para prestar esclarecimentos sobre cerca de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas ao Instituto Conhecer Brasil, entidade vinculada à produtora Karina Ferreira da Gama.
A própria Karina e seu sócio, Michael Brian Davis, também foram citados na investigação do Intercept. Segundo o veículo, a ONG ligada à empresária já havia recebido ao menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar contratos de Wi-Fi público investigados atualmente pelo Ministério Público paulista.