
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou nesta sexta-feira (23) pessoas que defendem o empresário o “cidadão do Master”, em referência a Daniel Vorcaro, e afirmou que há “muita gente sem vergonha na cara” ao comentar o impacto de fraudes financeiras sobre o país. A declaração foi feita durante evento de entrega de unidades do programa Minha Casa, Minha Vida, em Maceió (AL).
Ao tratar do caso, Lula afirmou que irregularidades financeiras de grande escala não afetam apenas bancos ou investidores, mas atingem diretamente a população. “O pobre se sacrifica, enquanto o dono do banco dá um golpe de 40 bilhões de reais”, disse. Em outro momento, o presidente reforçou que crises bancárias acabam se espalhando por todo o sistema. “Quando um banco quebra ou é fraudado, quem paga a conta é o povo brasileiro”, afirmou.
Lula também criticou a tentativa de relativizar crimes financeiros quando envolvem grandes interesses econômicos. Segundo ele, a defesa pública de empresários investigados ignora os efeitos concretos dessas práticas sobre trabalhadores, correntistas e políticas públicas, além de transferir riscos ao sistema financeiro e ao setor público.
Envolvimento de Vorcaro com Ibaneis
O caso ganhou maior repercussão política nesta sexta após Daniel Vorcaro citar, em depoimento à Polícia Federal, conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sobre a tentativa de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB).
O governador negou irregularidades e afirmou que nunca tratou diretamente da operação com o banqueiro, sustentando que eventuais negociações foram conduzidas pela antiga diretoria do BRB.
Impeachment de Ibaneis
A menção, no entanto, levou representantes do PSB, do Cidadania e do PSOL a apresentarem dois pedidos de impeachment contra o governador, por supostos crimes de responsabilidade relacionados às negociações entre o banco público e a instituição privada.
Como prevê a legislação, os pedidos foram protocolados na Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) e ainda precisam cumprir uma série de etapas regimentais antes de eventual votação em plenário.
Uma das solicitações de afastamento é assinada por quatro integrantes do PSB-DF: Rodrigo Dias, o deputado federal Rodrigo Rollemberg, Leonardo Pinheiro e outros dirigentes partidários. Também subscreve o documento o presidente do Cidadania-DF, Cristovam Buarque. O outro pedido foi protocolado pelo diretório do PSOL no Distrito Federal e é assinado pela presidente regional da sigla, Giulia Tadini.
No documento apresentado por PSB e Cidadania, os partidos afirmam que a tentativa de compra do Banco Master pelo BRB não teve como objetivo fortalecer a instituição adquirida, mas ocultar um suposto passivo relevante dentro de uma estrutura pública. Segundo a representação, a postura do governador ao politizar uma decisão técnica do Banco Central e atribuir a rejeição da operação a supostas interferências partidárias, em vez de determinar apuração interna das irregularidades, configuraria omissão dolosa e conivência com atos de gestão fraudulenta.
Já o pedido apresentado pelo PSOL sustenta que há indícios suficientes para apurar, em tese, crime de responsabilidade por atentado à probidade administrativa e ao correto emprego de recursos públicos. O documento afirma que Ibaneis Rocha, na condição de chefe do Executivo e acionista controlador indireto do BRB, teria impulsionado e defendido publicamente uma operação de elevado risco envolvendo uma instituição privada sob severa desconfiança do mercado, o que poderia ter deslocado riscos para a esfera pública e exposto o patrimônio do banco e do Distrito Federal.
Segundo a representação, o governador teria negligenciado a conservação do patrimônio público, com perdas estimadas até agora em R$ 2,6 bilhões, além de contribuir para a criação de um cenário de risco real que deveria ter sido prevenido pela diligência exigida do cargo.
Abertura de dados pelo diretor do Banco Central
Também nesta sexta-feira (23), o diretor de Fiscalização do Banco Central, Ailton de Aquino Santos, colocou à disposição do Ministério Público Federal e da Polícia Federal suas informações bancárias, fiscais e os registros das conversas mantidas com o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa. Em nota, o Banco Central afirmou que Aquino jamais recomendou ao BRB a aquisição de carteiras fraudulentas do Banco Master.
Segundo a autoridade monetária, partiu da área chefiada por Aquino a iniciativa de comunicar os ilícitos criminais ao Ministério Público Federal, além do envio de documentação e análises técnicas que embasam as investigações. O Banco Central informou ainda que foi o próprio diretor quem submeteu à diretoria colegiada da instituição a proposta de liquidação extrajudicial do conglomerado Master, como medida para proteger o sistema financeiro.
O posicionamento do BC foi divulgado após a publicação de informações de que Ailton de Aquino teria trocado mensagens com Paulo Henrique Costa sobre a aquisição de créditos do Banco Master. A autarquia sustenta que, sob o comando do diretor, a área de supervisão identificou inconsistências, promoveu investigações rigorosas e aplicou medidas prudenciais preventivas ao BRB para evitar novas operações que pudessem comprometer a liquidez da instituição.