Vorcaro
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Os depoimentos prestados pelo banqueiro Daniel Vorcaro à Polícia Federal no inquérito que apura irregularidades envolvendo o Banco Master revelam um padrão de comportamento que chamou a atenção dos investigadores e ganhou centralidade na cobertura jornalística nas últimas semanas.

Entre negativas, ironias e contradições formais, o banqueiro construiu uma linha de defesa marcada mais pelo confronto do que pela colaboração, que pode ser constatado pelas filmagens liberadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) esta semana.

“O senhor está tentando me pegar desde 2019”

A frase mais emblemática atribuída a Vorcaro surgiu durante um dos depoimentos à Polícia Federal e foi registrada em atas e reportagens sobre uma suposta perseguição relacionada às suas contas. Dirigindo-se diretamente a um investigador, o empresário afirmou: “O senhor está tentando me pegar desde 2019.”

A declaração foi interpretada nos bastidores como uma tentativa de desqualificar a investigação e personalizar o inquérito, estratégia incomum em depoimentos formais.

Recusa em fornecer senha do celular

Outro ponto confirmado diz respeito à recusa de Vorcaro em fornecer a senha de seu telefone celular. Segundo registros oficiais, o banqueiro afirmou que não entregaria o acesso ao aparelho, mesmo diante de ordem judicial, sustentando que se tratava de uma questão de direito individual e estratégia de defesa.

A recusa foi formalmente registrada e mencionada por investigadores como elemento relevante do depoimento.

Admissão de crise, negação de fraude no Master

Vorcaro também admitiu dificuldades de liquidez no Banco Master, mas negou de forma categórica qualquer prática fraudulenta. Em depoimento, afirmou que os problemas enfrentados pela instituição seriam consequência de fatores de mercado, e não de conduta ilícita.

Em uma das declarações registradas, sustentou que “não houve fraude, nem intenção de enganar clientes ou investidores”, reiterando que a situação do banco estaria sendo tratada dentro dos parâmetros legais.

Essa linha de argumentação aparece de forma consistente em seus relatos: reconhecimento de fragilidade financeira, combinado com a defesa de que não houve engano a investidores, clientes ou órgãos reguladores.

Defesa do modelo de negócios

Em diferentes momentos, Vorcaro afirmou que o modelo adotado pelo Banco Master seguia práticas conhecidas do sistema financeiro e estava amparado pela legislação vigente. Em depoimento, declarou que a utilização de instrumentos como o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) fazia parte do funcionamento regular do mercado bancário.

Segundo registros do inquérito, Vorcaro sustentou que “tudo foi feito dentro das regras” e que não haveria ilegalidade na forma como o banco operava, rejeitando a tese de exploração indevida de brechas normativas.

Embora a expressão “regra do jogo” não apareça de forma idêntica em todas as transcrições, está confirmado que Vorcaro defendeu reiteradamente a ‘legalidade do modelo’ e negou qualquer abuso deliberado do sistema.

Contradições em acareação

As inconsistências nos relatos ganharam novo peso durante a acareação com Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB). Segundo reportagens da Agência Brasil, os dois apresentaram versões divergentes sobre pontos centrais da relação entre as instituições, o que levou investigadores a registrar formalmente as contradições.

Durante a acareação, Vorcaro manteve a linha de que não havia irregularidade nas operações, enquanto Costa apresentou narrativa distinta sobre decisões e responsabilidades, aprofundando o conflito entre as versões.

O episódio reforçou a percepção de que os depoimentos não apenas negam irregularidades, mas também deslocam responsabilidades e disputam narrativas dentro do próprio sistema financeiro.

Um padrão que pesa contra o investigado

Isoladamente, cada declaração pode ser lida como estratégia defensiva. Em conjunto, porém, as falas confirmadas de Daniel Vorcaro desenham um padrão de enfrentamento direto às autoridades, resistência a mecanismos de investigação e tentativa de normalizar práticas que hoje estão sob escrutínio judicial.

À medida que o caso avança e novas fases do inquérito se tornam públicas, os próprios depoimentos do empresário, registrados em atas, acareações e reportagens, passaram a funcionar como peças centrais do processo. Não por revelarem arrependimento ou cooperação, mas por exporem, em palavras do próprio investigado, a lógica que sustentou a maior crise envolvendo o Banco Master.

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