
O Brasil alcançou um marco histórico em seu mercado de trabalho. A taxa de desocupação caiu para 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor patamar desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad), em 2012. Na média anual, o indicador ficou em 5,6%, também recorde para o período. Com aproximadamente 5,5 milhões de pessoas em busca de emprego e uma população ocupada de 103 milhões, o país se aproxima, ou até mesmo alcança, a condição de pleno emprego, conceito que merece ser compreendido para entender suas implicações econômicas.
Diferentemente do que o senso comum poderia sugerir, pleno emprego não significa desemprego zero. Trata-se de uma situação econômica em que a taxa de desocupação atinge um nível considerado de equilíbrio, sem estar atrelada à falta de demanda agregada na economia. Em outras palavras, o desemprego existente não resulta de recessão ou crise, mas de fatores estruturais e friccionais do mercado de trabalho — pessoas em transição entre empregos, buscando novas oportunidades ou entrando pela primeira vez no mercado.
Para ilustrar na prática: um universitário que dedica seu tempo somente aos estudos, uma dona de casa que não trabalha fora ou mesmo um beneficiário do Bolsa Família que não busca emprego não são considerados desempregados pelo IBGE. Essas pessoas estão fora da força de trabalho. Por outro lado, uma empreendedora com seu próprio negócio ou um motorista de aplicativo — mesmo recebendo seguro-desemprego — são classificados como ocupados. O desemprego, portanto, refere-se especificamente a pessoas com idade para trabalhar (acima de 14 anos) que não estão trabalhando, mas estão disponíveis e ativamente procurando emprego.
O conceito de pleno emprego varia conforme a escola econômica. Bancos centrais ao redor do mundo utilizam a Taxa de Desemprego Não Aceleradora da Inflação (NAIRU, na sigla em inglês) para decisões de política monetária. Esse indicador define o pleno emprego como o nível de desocupação abaixo do qual a inflação começa a se acelerar. O Itaú estima que essa taxa neutra de desemprego no Brasil seja de cerca de 8%, considerando o cenário macroeconômico atual. Já economistas da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre) calculam que esteja entre 9% e 9,5%.
Com a taxa atual de 5,6%, portanto, o Brasil operaria abaixo do pleno emprego, o que explica as pressões salariais observadas em praticamente todos os setores. A massa salarial real efetiva cresceu 6,4% na comparação interanual, sinalizando um mercado aquecido. O rendimento médio real habitual atingiu R$ 3.560 em 2025, aumento de 5,7% em relação a 2024, enquanto a massa de rendimento real chegou a R$ 361,7 bilhões — ambos recordes da série histórica.
Outros indicadores reforçam a robustez do mercado de trabalho. A taxa de subutilização, que inclui pessoas desocupadas, subocupadas por insuficiência de horas trabalhadas ou na força de trabalho potencial, caiu para 14,5% em 2025, a menor da série. Isso representa 16,6 milhões de pessoas, queda de 10,8% em relação aos 18,7 milhões de 2024. Para contextualizar a melhora: durante a pandemia de Covid-19, essa taxa chegou a 28,5% em 2021, com 32,1 milhões de pessoas subutilizadas.
O emprego formal também bateu recordes. O número de empregados do setor privado com carteira assinada alcançou 38,9 milhões de pessoas em 2025, crescimento de 2,8% e adição de cerca de 1 milhão de trabalhadores formais em relação ao ano anterior. Simultaneamente, o contingente de trabalhadores por conta própria atingiu 26,1 milhões, o maior da série histórica, impulsionado pela economia digital e aplicativos.
A coordenadora de Pesquisas por Amostra de Domicílios do IBGE, Adriana Beringuy, ressalta que a queda da desocupação não resultou de aumento da subutilização ou do desalento. “A trajetória de queda foi sustentada pela expansão da ocupação, principalmente nas atividades de serviços”, destaca. Setores como Informação, Comunicação, Atividades Financeiras e Administração Pública lideraram a geração de empregos, concentrando trabalhadores mais escolarizados, com vínculos formalizados e rendimentos elevados.
A manutenção do pleno emprego depende da capacidade de equilibrar oferta e demanda no mercado de trabalho, evitando tanto o excesso de desemprego quanto pressões inflacionárias que surgem quando a economia opera acima de sua capacidade sustentável. O Banco Central não divulga suas estimativas exatas para a NAIRU por questões estratégicas, mas tem usado termos como “mercado de trabalho aquecido” e “hiato do produto positivo” em suas comunicações, sinalizando atenção a esse cenário inédito que combina baixo desemprego, salários em alta e economia resiliente.