
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o “principal desafio da Venezuela é fortalecer sua democracia” durante entrevista ao portal UOL, na qual, além de temas domésticos, comentou a situação política e social no país vizinho e as implicações para a região. A fala foi feita no Palácio do Planalto, em Brasília, em conversa ao vivo com a jornalista Daniela Lima, em quinta-feira (5).
“Essa não é a preocupação principal”, disse Lula, ao ser questionado sobre a possibilidade de Maduro e de sua esposa, Cília Flores, retornarem à Venezuela. “A preocupação principal é a seguinte: há possibilidade de fortalecer a democracia na Venezuela e o povo da Venezuela, que está fora, voltar? Há condições de fazer com que a democracia seja efetivamente respeitada e o povo possa participar efetivamente?”, afirmou.
Na avaliação do presidente brasileiro, o debate sobre democracia não pode ser separado das condições materiais de vida da população. Lula relacionou o fortalecimento democrático à geração de empregos, à retomada da produção econômica e à reconstrução da capacidade produtiva do país. “O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não, se vai gerar emprego, se vai voltar a produzir 3,7 milhões de barris por dia”, disse, ao mencionar a importância da produção petrolífera para a economia venezuelana.
Democracia sem intervenção externa
Lula foi direto ao rejeitar qualquer solução imposta de fora para dentro. Segundo ele, cabe exclusivamente ao povo venezuelano decidir os rumos do país. “Eu disse ao presidente Trump: quem vai resolver o problema da Venezuela são os venezuelanos. Permitam que eles resolvam os problemas deles. Eles têm que assumir a responsabilidade”, afirmou.
Ao defender que Caracas e Washington “se entendam”, o presidente lembrou que conflitos entre os dois países não são inevitáveis nem naturais. “Quando o Hugo Chávez era presidente, eu dizia para ele que era extremamente importante que ele e [George] Bush se entendessem”, afirmou. Para Lula, a relação entre os dois países chegou a ser marcada por contradições evidentes. “Era uma briga de compadre. A Venezuela vendia gasolina para os Estados Unidos e os Estados Unidos compravam gasolina da Venezuela”, disse.
Palestina, soberania e coerência internacional
Na mesma entrevista, Lula tratou também da guerra em Gaza e da proposta de criação de um “Conselho da Paz” liderado pelos Estados Unidos. O presidente afirmou que o Brasil só aceitaria participar de qualquer iniciativa desse tipo se houvesse participação direta dos palestinos, rejeitando fóruns internacionais que excluam os povos diretamente afetados pelos conflitos.
“O Brasil tem todo o interesse de participar. Agora, é muito estranho que você crie um conselho e que não tenha um palestino na direção”, afirmou. Lula criticou ainda propostas que tratam a reconstrução de Gaza como um projeto imobiliário, sem enfrentar a destruição da vida cotidiana. “Eu quero saber quem é que vai reconstruir as casas, os hospitais, as padarias, os bairros que foram detonados. Porque a vida de 75 mil mulheres e crianças não retornará mais”, disse.
Para o presidente, há uma linha comum entre os dois temas. Democracia, segundo ele, não pode ser usada como instrumento de pressão geopolítica, nem dissociada da soberania dos povos. “Não tem tema proibido para discutir entre Brasil e Estados Unidos, com exceção da soberania. Essa é sagrada”, afirmou.
América Latina como projeto político
Ao ampliar a análise para a região, Lula defendeu uma mudança de postura histórica na política internacional da América Latina. Para ele, os países latino-americanos precisam abandonar a dependência externa e construir instituições próprias, capazes de atuar de forma conjunta no cenário global.
“Se a gente não criar coragem, criar instituições fortes entre nós e montar um bloco para trabalhar conjuntamente com o resto do mundo, a América Latina está fadada a mais um século de pobreza e esquecimento”, afirmou. “Depende de nós. Precisamos descolonizar a nossa cabeça.”
Lula lembrou que a história do continente é marcada por ciclos sucessivos de dominação externa. “Fomos colonizados por espanhóis e portugueses, pela indústria inglesa e pelos países ricos, com os Estados Unidos tendo muita influência”, disse.
Na mesma entrevista, o presidente voltou a defender que a América do Sul seja tratada como zona de paz, livre de intervenções militares e disputas entre grandes potências. “A gente não tem bomba atômica, não tem arma nuclear. O que a gente quer é crescer economicamente, fortalecer o processo democrático e melhorar a vida de milhões de latino-americanos. A América Latina não pode continuar sendo pobre”, afirmou.