
A corrida de Wagner Moura ao Oscar por “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, ganhou força nas últimas semanas com a consolidação do filme na temporada internacional de premiações. No domingo (16), o longa venceu o Independent Spirit Awards, principal premiação do cinema independente nos Estados Unidos, resultado que impulsionou a candidatura brasileira na reta final da disputa.
Antes disso, o filme já havia acumulado reconhecimento em festivais e associações de críticos, figurando entre os destaques da temporada e ampliando sua circulação no circuito norte-americano e europeu. A indicação ao Oscar coroou uma trajetória iniciada no circuito de festivais e consolidou o projeto como uma das produções brasileiras de maior alcance internacional nos últimos anos.
Para Moura, a campanha marca um novo capítulo em uma trajetória já reconhecida fora do Brasil. O ator ganhou projeção internacional com “Narcos”, foi premiado em festivais estrangeiros por trabalhos anteriores e dirigiu produções exibidas em grandes mostras. A atual indicação ao Oscar representa a culminação de um percurso que combina carreira internacional consistente e presença frequente no debate público.
Na temporada de entrevistas que acompanha a corrida, Moura optou por não separar cinema e política. Em vez de manter a neutralidade estratégica comum nesse tipo de campanha, utilizou o espaço para discutir autoritarismo, memória histórica, desinformação e políticas migratórias.
A seguir, dez momentos em que suas declarações repercutiram para além do universo cinematográfico.
1. “Esses caras podem te matar. Até eu tenho medo de me deparar com o ICE.”
Entrevista ao El País, publicada em 18 de fevereiro de 2026
Na entrevista concedida ao jornal espanhol El País, Moura discutia o clima político nos Estados Unidos quando foi questionado sobre o endurecimento das políticas migratórias. A resposta foi direta:
“Estamos atravessando um momento muito feio; até eu tenho medo de me deparar com o ICE. Digo isso porque reajo de maneira explosiva quando vejo uma situação de injustiça ou de autoritarismo diante dos meus olhos. E agora não sei se conseguiria fazer isso, porque esses caras podem te matar, como vimos”, disse.
Ele se referia ao Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA. No contexto da conversa, Moura associou o temor ao ambiente institucional e ao crescimento de discursos que, segundo ele, normalizam práticas coercitivas. A declaração ocorreu no momento em que promovia o filme na Europa e analisava o cenário político americano à luz da narrativa do longa.
2. “Eu não acho que os Estados Unidos devam simplesmente virar a página.”
CNN, programa Amanpour, 7 de fevereiro de 2026
Em entrevista à jornalista Christiane Amanpour, Moura comentou declarações de Donald Trump e a ideia de “seguir em frente” diante de controvérsias políticas.
“Eu não acho que os Estados Unidos devam simplesmente virar a página. O país deve investigar esses arquivos, as pessoas envolvidas e não deixar o assunto passar.”
Ao aprofundar a comparação, acrescentou:
“Foi isso que causou a amnésia no Brasil.”
Ele relacionava a falta de responsabilização histórica no Brasil ao retorno de discursos extremistas décadas depois, conectando o argumento à narrativa de “O Agente Secreto”.
3. “Bolsonaro não surgiu do nada.”
Variety, 29 de janeiro de 2026
Em entrevista à revista Variety, Moura traçou paralelos entre Jair Bolsonaro (PL) e Donald Trump. Segundo ele:
“Bolsonaro não surgiu do nada — ele reflete o país, assim como Trump reflete os Estados Unidos”.
O ator afirmou que lideranças desse tipo são resultado de processos políticos e sociais mais amplos, e não fenômenos isolados.
4. “Os fatos não importam mais. Trata-se de versões da verdade.”
Variety, 29 de janeiro de 2026
Na mesma conversa, Moura discutiu desinformação e disputa narrativa:
“O que mais me preocupa na humanidade hoje em dia é que não existem mais fatos. Os fatos não importam mais. Antes brigávamos — à esquerda e à direita — costumávamos discutir, mas brigávamos pela mesma coisa. Hoje em dia, não se trata de fatos. Trata-se de versões da verdade”, declarou.
Ele relacionou esse cenário ao avanço de discursos polarizados e ao enfraquecimento de consensos institucionais.
5. “É assim que o autoritarismo funciona em qualquer lugar.”
Associated Press, fevereiro de 2026
Em entrevista à Associated Press, Moura afirmou:
“É assim que o autoritarismo funciona em qualquer lugar.”
Ele explicava que mecanismos de concentração de poder seguem padrões semelhantes em diferentes países, rejeitando a ideia de excepcionalidade brasileira ou americana.
6. “A ditadura é uma cicatriz aberta.”
Entrevista no Globo de Ouro, janeiro de 2026
Ao contextualizar o filme, ambientado no período da ditadura militar, Moura afirmou, após receber o Globo de Ouro:
“A ditadura é uma cicatriz aberta.”
Segundo ele, o Brasil ainda convive com consequências políticas e sociais da falta de responsabilização ampla após o regime.
7. “Eu sou um ator brasileiro e represento muitas pessoas que vivem aqui e falam com sotaque.”
CNN, 2 de fevereiro de 2026
Ao explicar por que não neutraliza o sotaque em produções internacionais, afirmou:
“Nunca entendi atores que tentam perder seus sotaques. Sou um ator brasileiro e represento uma quantidade enorme de pessoas que moram aqui neste país [EUA] e falam com sotaque. […] No início, me perguntavam se eu conseguiria interpretar um personagem com sotaque padrão americano. Eu respondia que não. Primeiro, porque eu não consigo (risos), mas também porque eu acho isso meio errado. Sou um ator brasileiro”, completou.
Ele defendeu que manter o sotaque é também uma afirmação cultural.
8. “Quanto mais democrático for o governo, mais ele vai entender que cultura é importante.”
Entrevista ao Diário de Notícias (Portugal), 2025
Durante coletiva de imprensa para a divulgação de “O Agente Secreto”, em 2025, Wagner Moura relacionou diretamente democracia e política cultural. Ao jornal português Diário de Notícias, afirmou:
“A cultura, a arte, andam juntos com a democracia. Quanto mais democrático for o governo, mais ele vai entender que cultura é importante e, hoje, no Brasil, vivemos um momento muito bom — ou, no mínimo, muito melhor do que entre 2018 e 2022. […] Quanto mais democrático for o governo, mais ele vai entender que cultura é importante.”
Na entrevista, Moura argumentou que o ambiente institucional influencia diretamente a produção artística e defendeu que políticas públicas consistentes são fundamentais para o cinema nacional. A fala foi dada no contexto de uma análise sobre o momento político brasileiro e a retomada de investimentos culturais após anos de retração.
9. “Não dá pra explicar Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Áurea.”
CartaCapital, 2025
Em entrevista à CartaCapital, Moura criticou a forma como o debate sobre financiamento cultural foi instrumentalizado politicamente nos últimos anos. Ao comentar ataques à Lei Rouanet, declarou:
“Tem muita gente que fala essas coisas – ‘Lei Rouanet…não sei o que lá’ – porque não entende, porque não sabe, porque é ignorante. Um amigo me disse certa vez o seguinte: ‘eu não posso explicar a Lei Rouanet para quem não assimilou a Lei Áurea ainda’. “Tem gente que sabe exatamente como funciona [a Rouanet] e para o que ela serve, sabe o tanto de emprego e renda que [os incentivos] geram e, mesmo assim, escolhe, de uma forma desonesta, mentir”, completou.
A frase sintetizou sua crítica ao que considera uma leitura distorcida sobre políticas públicas de incentivo à cultura. Moura associou o tema a disputas ideológicas mais amplas e ao uso político da desinformação no debate cultural brasileiro.
10. “Vivemos num mundo muito polarizado.”
Declaração no Globo de Ouro, 2026
Durante a cerimônia do Globo de Ouro de 2026, Moura comentou o cenário político global ao falar sobre o papel do cinema.
“Você tem que está ciente que você terá que pagar o preço, mas estou disposto a isso. Eu sou uma pessoa política, eu penso politicamente, eu gosto de fazer filmes políticos. “Em ordem de fazer isso você tem que está ciente que você terá que pagar o preço, mas estou disposto a isso. O Agente Secreto é um deles, Guerra Civil é um deles, Narcos é um deles… Seria estranho para mim trabalhar como um artista político e depois para com isso. É tão ruim viver em um mundo polarizado que é tão teve uma época que a direita e a esquerda, nós lutávamos, nós discutíamos, mas estávamos falando de fatos. Hoje vivemos em um momento que não ligam mais para fatos”, disse.
A declaração foi feita no contexto da defesa do diálogo e da cultura como espaços de mediação. Ao abordar o ambiente internacional, Moura associou o momento político a tensões democráticas em diferentes países e reforçou a ideia de que obras como “O Agente Secreto” dialogam com esse cenário.
A vitória no Spirit Awards consolidou “O Agente Secreto” na disputa pelo Oscar. Ao mesmo tempo, a postura de Wagner Moura marcou a temporada. Em vez de manter neutralidade estratégica, o ator vinculou a campanha do filme a debates contemporâneos sobre democracia e memória histórica, transformando entrevistas promocionais em espaços de posicionamento político.