
A revista americana The New Yorker publicou na última sexta-feira (20) o artigo “Come to Brazil. The Oscars Just Might” — “Venham para o Brasil? O Oscar pode muito bem acontecer” —, assinado pelo crítico Michael Schulman, analisando a presença inédita e crescente do Brasil na temporada do Academy Awards e o fenômeno cultural que tomou o país.
Fundada em 1925, a New Yorker é uma das publicações mais influentes dos Estados Unidos nas áreas de cultura, política e crítica artística. Seu olhar costuma moldar debates na indústria cultural americana. O fato de dedicar um artigo de fôlego ao Brasil na corrida pelo Oscar sinaliza o peso simbólico que o cinema brasileiro passou a ocupar no cenário internacional.
O texto abre com uma observação curiosa. Antes mesmo do anúncio das indicações ao Oscar começar na transmissão ao vivo da Academia no Instagram, os comentários já estavam “repletos de emojis da bandeira brasileira”.
A razão era clara. “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, recebeu quatro indicações: Melhor Filme Internacional, Melhor Filme, Melhor Ator para Wagner Moura e a categoria inédita de Melhor Elenco. O artigo lembra ainda que, um ano antes, “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, foi indicado a Melhor Filme e Melhor Atriz para Fernanda Torres — e trouxe ao país sua primeira vitória na categoria internacional.
A conquista, escreve Schulman, “inspirou euforia nas ruas do Brasil, onde o Carnaval estava a todo vapor”.
O Oscar como Copa do Mundo
A revista sustenta que a “entrada fulminante do Brasil na corrida pelo Oscar não é uma anomalia”. Após o escândalo #OscarsSoWhite, há uma década, a Academia ampliou significativamente seu quadro de votantes. “Mais de um quinto dos votantes do Oscar agora estão fora dos Estados Unidos”, destaca o texto.
O resultado é um Oscar menos centrado em Hollywood e mais próximo “dos Jogos Olímpicos”, com produções estrangeiras disputando as principais categorias.
Mas, segundo a revista, há algo particular no Brasil: “uma febre nacional pelo Oscar que é exuberante, competitiva e extremamente online”.
“Os brasileiros são notavelmente ativos nas redes sociais”, escreve Schulman, lembrando que o país é o terceiro maior usuário do TikTok no mundo. A crítica Beatriz Izumino, da Folha de S.Paulo, é citada afirmando: “Ninguém fala como nós. Ninguém escreve como nós. Então, aconteça o que acontecer, é uma espécie de piada interna só nossa”.
O produtor Rodrigo Teixeira sintetiza o fenômeno: ‘Foi como se eu tivesse ganhado uma medalha de ouro. Pensei: ‘Meu Deus, o que está acontecendo?’. Um motorista de Uber o parabenizou; restaurantes lhe ofereceram refeições gratuitas. Dois meses depois, após a vitória no Oscar, o piloto do voo de volta anunciou que a equipe de “Ainda Estou Aqui” estava a bordo, e o avião inteiro explodiu em aplausos. No Carnaval, ele e seus colaboradores foram recebidos em casa “como as Kardashians’, diz um trecho do texto. “O Oscar se tornou a Copa do Mundo para nós”, comentou Teixeira.
Complexo de vira-lata e virada política
O artigo mergulha em uma análise histórica mais profunda. Schulman relembra o conceito de “complexo de vira-lata”, cunhado por Nelson Rodrigues após a derrota do Brasil para o Uruguai em 1950, para explicar um sentimento persistente de inferioridade pós-colonial.
Segundo a pesquisadora Aianne Amado, citada no texto, isso gerou uma “fome de validação externa”. “Sempre olhamos para os Estados Unidos e para a Europa, e nos desvalorizamos”, afirma.
O texto conecta ainda o atual momento do cinema brasileiro ao contexto político recente. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o financiamento cultural foi reduzido e artistas passaram a ser retratados como privilegiados que desperdiçavam recursos públicos. A diretora do Festival do Rio, Ilda Santiago, lembra: “Basicamente, tivemos que fazer financiamento coletivo”.
Com a volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder em 2022, o ambiente institucional mudou. Schulman observa que tanto “Ainda Estou Aqui” quanto “O Agente Secreto” revisitam a ditadura militar brasileira, período que Bolsonaro frequentemente minimizou.
O professor Bruno Guaraná, da Universidade de Boston, afirma no artigo: “Havia uma tendência a pintar a ditadura militar sob uma luz muito mais positiva… quando os dados mostram exatamente o contrário. E esses filmes contestam isso”.
A New Yorker sugere que o sucesso dessas obras não é apenas artístico, mas político. São narrativas que dialogam com debates contemporâneos sobre autoritarismo, tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
Cinema no lugar do futebol
Um dos trechos mais simbólicos do artigo compara o entusiasmo pelo Oscar ao futebol. Após a derrota histórica por 7 a 1 para a Alemanha em 2014, a autoestima nacional foi abalada. Para Teixeira, o cinema passou a ocupar esse espaço simbólico.
“O cinema está substituindo o futebol na alma dos brasileiros”, afirma ele. “É um momento de orgulho. O Brasil é bom em alguma coisa. Não somos mais ruins. Somos bons em cinema. Somos bons em arte e estamos vencendo!”
A revista conclui que o Brasil deixou de ser apenas um mercado vibrante e barulhento nas redes para se tornar um ator relevante no sistema global de festivais e premiações. A “febre nacional” pode parecer exagerada para observadores externos, mas, segundo o artigo, ela é parte de um processo mais amplo de afirmação cultural e reposicionamento geopolítico.
Mais do que disputar estatuetas, o Brasil disputa narrativa, reconhecimento e centralidade no debate cultural internacional. E, pela primeira vez em décadas, o Oscar passou a olhar de volta.