Gilvan Souza/CRF

A repentina demissão de Filipe Luís do posto de técnico do Flamengo, anunciada pela direção do clube na madrugada desta terça-feira (3) após a goleada de 8 a 0 sobre o Madureira que garantiu o time na decisão do Campeonato Carioca, pegou o mundo do futebol de surpresa.

Em conversa que durou menos de 30 segundos, o diretor de futebol do rubro-negro carioca, José Boto, comunicou Filipe Luís da decisão tomada pelo presidente do clube, Luiz Eduardo Batista, o Bap.

A ascensão meteórica de Filipe Luís como treinador de futebol – ele se aposentou como jogador no fim de 2023 – foi uma das grandes histórias do futebol brasileiro em 2025. Conciliando rigor tático, gosto pelo estudo e uma ética de trabalho profunda, Filipe Luís deu ao Flamengo seu ano mais vitorioso no século XXI. Foram quatro títulos em 2025 – além da Copa do Brasil em 2024 com menos de dois meses no cargo.

Sua demissão se dá em um contexto de desgaste com a diretoria. Desde a conflituosa negociação de renovação de contrato no fim de 2025 ao atrito por conta da alteração do planejamento da pré-temporada do time profissional, os embates entre o treinador e a direção do clube se tornaram mais frequentes e públicos. Filipe se sentiu exposto durante o processo de negociação e também expressou descontentamento com a decisão da presidência em antecipar a volta do elenco principal em face dos resultados negativos do time sub-20 no Cariocão.

O movimento contradiz o discurso de Bap de profissionalizar a gestão do futebol e dar estabilidade a um trabalho técnico. O dirigente chegou a citar como exemplo o Palmeiras que dá respaldo a Abel Ferreira mesmo em momentos de turbulência.

Embora o início de temporada do Flamengo passe longe do ideal, parece absurdo dispensar um técnico que conquistou cinco títulos em 14 meses de trabalho, fez o time apresentar um futebol consistente e competitivo contra alguns dos melhores times do mundo como Chelsea, Bayern de Munique e PSG. Filipe teve apenas 15 derrotas no comando do Flamengo no período. Para efeito de comparação, Tite, o treinador anterior, teve 16 derrotas em oito meses e apenas um título, o Carioca de 2024. Agora no Cruzeiro, que também conta com um elenco forte, em 15 jogos, o treinador soma cinco derrotas.

Em sua última entrevista como treinador do clube, Filipe Luís refletiu: “independentemente do que aconteça, se amanhã eu não estiver aqui, o meu amor e carinho pelo Flamengo sempre vai existir. E acredito que do torcedor, para mim, também. A cobrança momentânea tem que existir, como jogador fui muito cobrado e muito criticado, com razão, e isso me fez ser melhor. Não tenho dúvidas que vivi os melhores anos da minha vida aqui”.

Máquina de triturar técnicos

Existe um lugar comum no futebol brasileiro que o Flamengo é uma máquina de triturar técnicos. Com o alto rendimento dos últimos anos, naturalmente essa máxima se potencializou. A torcida, que há três meses comemorava os títulos do Brasileirão e da Libertadores, já cobrava desempenho no começo de 2026 e questionava treinador e elenco em fevereiro. Essa reação apaixonada é esperada da torcida, mas profissionais do futebol devem levar em consideração elementos como média de idade do elenco, tempo de pré-temporada, ajuste de padrão de jogo etc.

A demissão de Filipe Luís entrega, ainda, como a cultura no futebol brasileiro, e no Flamengo em particular, carece de amadurecimento. Bons trabalhos precisam ser cultivados e a confiança é chave para a prosperidade. Na Inglaterra, onde se disputa aquele que é considerado o campeonato nacional mais disputado do planeta, a Premier League, o Manchester City não demitiu Pep Guardiola após passar a temporada 225/25 em branco. O Arsenal, em um hiato de títulos de 10 anos, dá respaldo ao trabalho de Miguel Arteta e depois de alcançar a semifinal da Liga dos Campeões na temporada passada, lidera o Inglês e vai bem na competição europeia novamente.

A pressão faz parte do futebol, assim como as cobranças, mas a resposta para elas não necessariamente passa por processos de ruptura. O Flamengo, vitorioso e financeiramente eloquente, parece ainda não ter aprendido a lição.

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