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A edição de 2026 do Oscar consolidou um movimento que vem se intensificando na última década: a ampliação do protagonismo das mulheres nas estruturas criativas do cinema. Entre atuação, produção, áreas técnicas e documentário, a presença feminina atingiu um patamar inédito na história recente da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Ao todo, 74 indicações estão ligadas a obras produzidas ou lideradas por mulheres, o maior número já registrado na premiação. O dado supera o recorde anterior, de 71 indicações, registrado em 2023.

Mais do que um número simbólico, o levantamento revela uma mudança de posição dentro da indústria: mulheres aparecem cada vez mais não apenas diante das câmeras, mas também nas decisões criativas e financeiras que definem o cinema contemporâneo.

O peso das protagonistas

A presença feminina se destaca principalmente nas categorias de atuação, que nesta edição reúnem uma geração de personagens femininas no centro das narrativas. Concorrem ao Oscar de Melhor Atriz:

Jessie Buckley — Hamnet
Renate Reinsve — Valor Sentimental (Sentimental Value)
Emma Stone — Bugonia
Rose Byrne — Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You)
Kate Hudson — Song Sung Blue: Um Sonho a Dois

As cinco interpretações indicadas refletem um cenário em que personagens femininas deixaram de ocupar papéis secundários para liderar narrativas complexas e diversas.

Na categoria Melhor Atriz Coadjuvante, também aparecem atuações marcantes de mulheres:

Teyana Taylor — Uma Batalha Após a Outra
Elle Fanning — Valor Sentimental
Amy Madigan — Armas (Weapons)
Wunmi Mosaku — Pecadores (Sinners)

Mulheres na engenharia do cinema

O avanço feminino também aparece em áreas tradicionalmente menos visíveis da indústria.

Na categoria Melhor Figurino, todas as indicadas são mulheres: Miyako Bellizzi, Deborah L. Scott, Ruth E. Carter, Kate Hawley e Malgosia Turzańska.

Outro marco ocorre na categoria Melhor Som, que pela primeira vez reúne uma equipe inteiramente feminina: Amanda Villavieja, Laia Casanovas e Yasmina Praderas, pelo filme Sirāt.

Já na Direção de Fotografia, a indicação de Autumn Durald Arkapaw por Pecadores reforça a presença feminina em uma das áreas mais técnicas e historicamente masculinas da indústria cinematográfica.

A edição de 2026 também inaugura a categoria Melhor Elenco, que traz entre os indicados nomes como Francine Maisler (Pecadores), Cassandra Kulukundis (Uma Batalha Após a Outra), Fiona Weir (Hamnet) e Susan Shopmaker (Marty Supreme).

As produtoras ganham espaço

Entre os indicados ao prêmio de Melhor Filme, oito das dez produções contam com mulheres em posições centrais de produção.

Entre elas estão:

Emma Stone — produtora de Bugonia
Dede Gardner — produtora de F1
Liza Marshall e Pippa Harris — produtoras de Hamnet
Sara Murphy — produtora de Uma Batalha Após a Outra

A presença dessas produtoras evidencia uma transformação importante na estrutura da indústria, onde as decisões de financiamento e desenvolvimento de projetos passaram a contar com maior participação feminina.

A direção ainda é território em disputa

Se em várias áreas a presença feminina cresce de forma consistente, a categoria de direção ainda revela uma desigualdade histórica.

Em 2026, Chloé Zhao aparece como a única mulher indicada ao prêmio de Melhor Direção, por Hamnet. A cineasta já havia feito história ao vencer o Oscar por Nomadland, lançado em 2020.

O cenário reforça uma contradição recorrente: enquanto mulheres ampliam presença em diferentes áreas da produção cinematográfica, a direção continua sendo um dos espaços mais restritos da indústria.

O impacto do movimento #OscarsSoWhite

Parte dessa transformação está ligada à pressão pública que a Academia enfrentou na última década. Em 2015 e 2016, a campanha #OscarsSoWhite denunciou a ausência de diversidade racial e de gênero entre os indicados.

A repercussão levou a Academia a ampliar o número de integrantes e a reformular critérios de elegibilidade, incluindo metas de diversidade para filmes que disputam a categoria de Melhor Filme.

Essas mudanças institucionais ampliaram o acesso de mulheres e de profissionais de diferentes origens às estruturas da indústria e da própria premiação.

Um século de Oscar

A trajetória da presença feminina no Oscar é marcada por avanços lentos. Desde a primeira edição da premiação, em 1929, a indústria cinematográfica foi dominada majoritariamente por homens.

A primeira mulher a vencer o Oscar de direção foi Kathryn Bigelow, apenas em 2010, por Guerra ao Terror. Até hoje, apenas três diretoras conquistaram a estatueta na categoria.

A edição de 2026, portanto, representa um ponto de inflexão dentro dessa história. Embora ainda existam lacunas importantes, o número recorde de indicações femininas indica uma mudança estrutural na composição criativa do cinema.

Cinema latino-americano em evidência

A presença feminina nesta edição também dialoga com a ampliação do espaço do cinema fora do eixo tradicional de Hollywood. Entre os indicados a Melhor Filme aparece O Agente Secreto, produção que reforça a visibilidade internacional do cinema latino-americano, cujo atuação da atriz Tânia Maria foi largamente elogiada, incluindo por veículos como The New York Times.

O longa integra uma safra recente de obras que ampliam a presença de narrativas e equipes criativas da região nas principais premiações internacionais.

Um retrato de mudança

A lista de indicados ao prêmio de Melhor Filme reúne produções como Bugonia, F1, Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme, Uma Batalha Após a Outra, O agente secreto, Valor Sentimental, Pecadores e Sonhos de Trem.

Em grande parte dessas obras, mulheres ocupam papéis centrais na criação artística, na produção ou na construção das narrativas.

O Oscar de 2026, portanto, não representa apenas um recorde numérico. A edição funciona como um retrato de uma indústria em transformação, na qual as mulheres ampliam sua presença nas estruturas criativas do cinema.

Se durante décadas a premiação refletiu um sistema dominado majoritariamente por homens, a lista de indicados deste ano aponta para uma mudança gradual e para um novo mapa de poder dentro da produção audiovisual global.

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