
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva desembarca em Washington nesta quarta-feira (6) para um encontro oficial com Donald Trump na Casa Branca, em uma data que pode definir não apenas o futuro da relação bilateral, mas também o equilíbrio político de ambos às vésperas de eleições cruciais nos EUA e no Brasil. A reunião, confirmada com apenas três dias de antecedência na última segunda-feira (4), rompe com os protocolos diplomáticos tradicionais e expõe a natureza imprevisível de uma agenda convocada unilateralmente pela Casa Branca.
A “coreografia atípica”, como definiu o analista político norte-americano Brian Winter, editor-chefe da revista Americas Quarterly, contrasta com o rigor de outras administrações. “Em outros governos, uma visita como essa teria sido cuidadosamente coreografada por várias agências governamentais. Neste caso, é realmente diferente”, afirmou Winter, que recebeu informações de que o encontro foi “100% convocado por Washington”. O “timing estranho”, no entanto, pode beneficiar Lula em um momento de vulnerabilidade doméstica, marcado pela rejeição de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), pela derrubada de seu veto à Lei de Dosimetria e pela queda na aprovação popular.
Os dois líderes chegam ao encontro desgastados. Trump vive seu momento mais impopular, rejeitado por 64% dos americanos, com risco concreto de perder em novembro o controle do Congresso. Lula, por sua vez, tenta recompor sua imagem internacional após uma série de derrotas legislativas. A pergunta que paira sobre o Salão Oval é se a “química” descrita por Trump durante um breve encontro na Assembleia Geral da ONU, em setembro passado, resistirá à pressão de temas espinhosos.
No campo geopolítico, as divergências são profundas. Lula consolidou-se como crítico ferrenho da agenda trumpista no Oriente Médio: condenou a intervenção americana na Venezuela, que depôs Nicolás Maduro; classificou de ilegal a guerra contra o Irã; rejeitou ameaças de ingerência em Cuba; e descartou participação no Conselho de Paz promovido por Washington. Em visita à Espanha, chegou a elogiar o premiê Pedro Sánchez — notório desafeto de Trump — por ter fechado o espaço aéreo a aviões dos EUA em operações contra o Irã. “Trump não tem o direito de acordar de manhã e ameaçar um país”, declarou ao jornal “El País”, prometendo, em tom conciliador, levar jabuticabas e maracujá para “acalmar o republicano”.
As repreensões públicas costumam provocar revide imediato do presidente americano, que não hesita em promover cenas de humilhação diplomática. As recepções reservadas a Volodymyr Zelensky, da Ucrânia, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul, servem de alerta: em ambos os casos, Trump e secretários constrangeram os líderes com acusações durante entrevistas informais no Salão Oval. Embora fontes de Washington indiquem que Lula e Trump receberão a imprensa no mesmo local, analistas avaliam como baixas as chances de uma “emboscada” — embora não descartem confronto dependendo dos temas abordados.
“Não acho que Trump esteja indo para essa reunião com intenções negativas. Pelo contrário, acho que a Casa Branca provavelmente espera um resultado positivo. Mas, dependendo do conteúdo discutido, pode acabar em um confronto”, avalia Winter.
As prioridades brasileiras são claras: combate ao crime organizado e pauta comercial. O governo americano estuda classificar facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas — medida que o Palácio do Planalto rechaça por temer interferências externas. Em dezembro, Brasília encaminhou ao Departamento de Estado proposta de cooperação em repressão à lavagem de dinheiro e ao tráfico de armas internacional. A assinatura de um acordo de combate ao crime organizado transnacional é um dos saldos esperados da viagem, em uma estratégia para evitar que Washington repita no Brasil a fórmula aplicada na Venezuela.
No campo econômico, o foco recai sobre o risco de novas sanções comerciais, especialmente envolvendo o Pix. Em julho de 2025, os EUA abriram investigação sobre práticas brasileiras consideradas “desleais” que poderiam prejudicar empresas de tecnologia americanas, incluindo o sistema de pagamentos instantâneos. O processo, conduzido sob a Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, pode resultar em tarifas adicionais. O vice-presidente Geraldo Alckmin classificou a investigação como uma “preocupação” e defendeu o Pix como “modelo bem-sucedido e adotado como referência por outros países”. A apuração abrange ainda etanol e desmatamento ilegal.
A situação no Oriente Médio e as ameaças recentes de Trump a Cuba — onde o republicano indicou que militares americanos poderiam “tomar o controle” da ilha — devem igualmente constar da pauta. Lula intensificou os contatos com a Casa Branca desde o segundo semestre de 2025, após tarifas e sanções contra autoridades brasileiras. Entre setembro de 2025 e maio deste ano, os dois líderes conversaram em cinco compromissos, aproximando-se das sete agendas mantidas com Joe Biden nos dois primeiros anos de governo.
O encontro desta quinta-feira (7) testará, afinal, se a diplomacia improvisada — hábito comum a ambos os presidentes — produz ganhos políticos reais ou aprofunda a instabilidade de uma relação já marcada por atritos. Para Lula, cair em uma armadilha de Trump significaria um revés adicional em momento de fragilidade. Para Trump, uma cena de humilhação alheia poderia reforçar sua base eleitoral, mas também comprometer uma parceria estratégica na América Latina.