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O papa Leão XIV recebeu nesta quinta-feira (7), no Vaticano, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, em um encontro marcado por tentativas de contenção da crise diplomática crescente entre a Santa Sé e o governo do presidente Donald Trump. A audiência ocorreu poucos dias após Trump intensificar críticas públicas ao novo pontífice por posições relacionadas à imigração, às guerras no Oriente Médio e à defesa de refugiados e populações vulneráveis.

Segundo o Vaticano, a conversa privada entre Leão XIV e Rubio durou cerca de 45 minutos e foi seguida por reuniões na Secretaria de Estado com o cardeal Pietro Parolin e o arcebispo Paul Richard Gallagher. Em nota oficial, a Santa Sé afirmou que houve “troca de pontos de vista sobre a situação regional e internacional”, com foco especial em “países marcados pela guerra, tensões políticas e difíceis situações humanitárias”.

Entre os temas discutidos estiveram os conflitos no Oriente Médio, a situação do Líbano, o Irã, guerras em países africanos e a crise em Cuba, que atravessa novo momento de forte tensão diplomática com os Estados Unidos. O Vaticano afirmou ainda que as duas partes reiteraram a necessidade de “trabalhar incansavelmente em prol da paz” e renovaram o compromisso de manter “boas relações bilaterais” entre Washington e a Santa Sé.

Relação com papa atravessa pior momento desde o início do pontificado

A audiência ocorreu em meio ao agravamento das tensões políticas entre Trump e Leão XIV. Desde o início do pontificado, o novo papa vem adotando uma linha fortemente humanitária em temas como imigração, deportações, guerras e acolhimento de refugiados, posições que passaram a gerar atrito direto com a Casa Branca.

Nos últimos dias, Trump voltou a atacar publicamente o pontífice após discursos em que Leão XIV criticou políticas migratórias consideradas desumanas e defendeu proteção a famílias deportadas e deslocadas por guerras. O papa também vem fazendo apelos frequentes contra a escalada militar no Oriente Médio e contra o avanço de crises humanitárias em Gaza, no Líbano e em áreas da África.

Aliados de Trump passaram a acusar o Vaticano de interferência política e de alinhamento com pautas “globalistas”. Setores do conservadorismo americano ligados ao trumpismo também ampliaram ataques ao pontífice em programas de televisão, redes sociais e plataformas digitais.

Na terça-feira (5), Leão XIV respondeu indiretamente às críticas durante uma aparição em Castel Gandolfo, reforçando que a Igreja Católica não pode se omitir diante do sofrimento humano e das crises migratórias globais. A fala foi interpretada como resposta direta ao endurecimento das políticas migratórias promovidas pela Casa Branca.

Rubio tenta preservar relação institucional entre EUA e Vaticano

Diante do agravamento do cenário, Marco Rubio foi enviado ao Vaticano com a missão de evitar deterioração diplomática mais profunda. Após a reunião, o secretário publicou mensagem afirmando que o encontro serviu para reforçar “o compromisso comum em promover a paz e a dignidade humana”.

Segundo o Departamento de Estado americano, também foram discutidas “questões de interesse comum para o hemisfério ocidental”, além de esforços humanitários e iniciativas voltadas à construção de “uma paz duradoura no Oriente Médio”. A diplomacia americana afirmou ainda que as conversas demonstraram “a parceria sólida e duradoura entre os Estados Unidos e a Santa Sé em apoio à liberdade religiosa”.

Nos bastidores do Vaticano, diplomatas avaliam que Rubio buscou transmitir uma imagem de estabilidade institucional e separar as divergências ideológicas de Trump das relações históricas entre Washington e a Igreja Católica. Ainda assim, integrantes da cúria romana reconhecem reservadamente que a relação entre o novo pontífice e o atual governo americano atravessa um momento particularmente delicado.

O próprio cardeal Pietro Parolin afirmou nesta semana considerar “estranhos” alguns ataques dirigidos ao papa por setores políticos americanos, reiterando que a posição da Santa Sé sobre paz, desarmamento e proteção humanitária permanece “firme e coerente”.

Imigração e guerras ampliaram distância política

A imigração continua sendo o principal ponto de tensão entre Leão XIV e Trump. Desde o retorno do republicano à presidência, os Estados Unidos ampliaram deportações aceleradas, reforçaram operações na fronteira com o México e endureceram políticas de detenção de imigrantes.

O papa passou a condenar publicamente medidas que, segundo ele, transformam migrantes em “ameaças descartáveis” e aprofundam crises humanitárias. A posição gerou reação direta de Trump, que chegou a afirmar que o Vaticano deveria “cuidar de seus próprios problemas” antes de criticar políticas americanas de fronteira.

As divergências também cresceram em torno das guerras no Oriente Médio. Leão XIV vem pressionando por cessar-fogo, ampliação de ajuda humanitária e proteção de civis, enquanto o governo americano mantém apoio militar e diplomático mais rígido a aliados estratégicos na região.

Vaticano busca evitar ruptura diplomática

Apesar do ambiente político cada vez mais tenso, o Vaticano tem buscado preservar canais de diálogo abertos com Washington. A avaliação da Santa Sé é de que os Estados Unidos continuam sendo ator central nas negociações internacionais envolvendo guerras, ajuda humanitária e estabilidade global.

A reunião desta quinta-feira foi interpretada por analistas europeus como uma tentativa de impedir que o confronto político entre Trump e Leão XIV evolua para uma crise diplomática mais ampla entre o governo americano e o Vaticano.

Mesmo com o tom cordial adotado oficialmente após o encontro, diplomatas reconhecem que persistem divergências profundas sobre imigração, guerras, direitos humanos e o papel da religião no debate político contemporâneo. A audiência entre Rubio e Leão XIV, porém, mostrou que tanto a Casa Branca quanto a Santa Sé ainda tentam preservar espaços mínimos de interlocução em um momento de crescente polarização internacional.

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