Os bolsonaristas adoram demonizar o Bolsa Família, chamando quem recebe o benefício de “vagabundo” e “imprestável que não quer trabalhar”, mas adoram, igualmente, receber o “Bolsa Master”. A revelação de que o senador Ciro Nogueira recebia mesada de 500 mil reais de Daniel Vorcaro só reforça a triste imagem de que o Congresso Nacional se comporta como capacho fiel ao sistema, fazendo emendas e projetos de lei para facilitar a vida de banqueiros e bilionários em troca de amizades pouco republicanas, e deixa o povo a ver navios.
Vejamos o caso de Ciro Nogueira, o ex-ministro de Jair Bolsonaro, um dos nomes cotados para ser vice de Flávio Bolsonaro e amigo do peito de Vorcaro. Além da bolada mensal, ele era agraciado com outros mimos, como o pagamento de faturas de cartão de crédito, bancando uma vida luxuosa, que incluía viagem de luxo dele e da namorada para Nova York, Portugal e estação de esqui. Uma espécie de Master Fun Fest.
Mas o que o senador fez para merecer tanto afeto do banqueiro, que é “uma das caras do sistema”? Não se sabe ainda a lista inteira de troca de favores, mas já conhecemos uma. O cacique do PP apresentou uma emenda, no Senado, para ampliar a cobertura do FGC, o Fundo Garantidor de Crédito, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. Segundo a PF, o texto foi redigido pela assessoria do Banco Master e entregue diretamente na casa de Ciro Nogueira. O que o senador fez foi um copia e cola. Sua emenda expressava exatamente a vontade do Banco Master, e caía como uma luva para que Daniel Vorcaro sextuplicasse sua ação fraudulenta no mercado.
A dura realidade é que não se trata de um caso isolado. Ciro Nogueira não é o único a rasgar o decoro parlamentar, leiloar seu mandato e deixar o povo em segundo plano. Quase sempre, o dinheiro fala mais alto.
O fim da escala 6×1 tramita no Congresso sob a ameaça de um enredo parecido. A grita de empresários e suas entidades segue alta. Assim como Vorcaro e o Master, eles são o sistema. E não estão acostumados a ceder, mesmo que isso represente ir contra a vontade de 74% dos brasileiros, segundo a última pesquisa. Querem barrar o fim da 6×1 ou, no mínimo, passar a conta para o governo pagar. É assim que o sistema funciona.
Nesta semana, uma caravana de empresários foi a Brasília dar a “última cartada” para melar a PEC que derruba a escala desumana de trabalho. Na agenda, eles tinham encontros marcados com as principais lideranças da oposição. Isto é, bolsonaristas e caciques do Centrão, como Ciro Nogueira e outros. Resta saber as promessas que eles fizeram a portas fechadas. Não é a regra, mas sempre que algum empresário diz “essa semana eu tenho uma reunião importante em Brasília”, você pode ficar cabreiro. Há boas chances de ter caroço nesse angu.
Aprovar o fim da escala 6×1, sem redução de salários, e sem regras de transição ou compensação financeira para os empresários será uma vitória do povo contra o sistema. Algo que fará justiça e levará mais dignidade para a vida de milhões de brasileiros, além de fazer bem para nossa democracia.
Inverter a lógica de um Congresso que trabalha para agradar o sistema e não para beneficiar o povo não é missão só da Polícia Federal, que investiga e vai pra cima de relações espúrias, como o Bolsa Master de Ciro Nogueira. É tarefa de todos nós. Na hora do voto e, depois, cobrando e se indignando com revelações como esta, que mostram como bolsonaristas e o Centrão estavam no bolso de Daniel Vorcaro e do sistema.