O projeto de lei que acaba com a escala 6×1, anunciado pelo presidente Lula, coloca Flávio Bolsonaro entre a cruz e a espada. Até agora, o senador da dancinha vem se esquivando do jeito que dá quando o assunto é a redução da jornada sem redução de salários, alertando sobre os impactos que a medida poderia trazer para a economia. Mas o PL de Lula, com tramitação em regime de urgência, cria prazo para que o Congresso Nacional avalie e vote a mudança na lei.
Em tese, Flávio não terá mais escolha nem como se esconder. Ele votará a favor do fim da escala 6×1, à revelia da vontade do empresariado e da Faria Lima que apostam em sua candidatura à Presidência, ou votará contra a nova lei, decepcionando 70% da população brasileira que quer a redução de jornada?
Os indícios já estão na mesa. Valdemar da Costa Neto, presidente do PL, o partido de Flávio, já disse que “daria a vida” para evitar que o tema seja votado em ano eleitoral porque – sabe ele e sabemos todos nós – nenhum parlamentar vai quer ficar mal na foto por votar contra uma medida popular. Outros caciques do centrão e da extrema direita pensam da mesma maneira e é daí que vem a tática de levar em banho-maria a tramitação da PEC, de autoria de Erika Hilton, que também propõe o fim da escala 6×1.
Se ser contra a redução da jornada já é rum para a imagem de um deputado que quer se reeleger em qualquer canto do país, imagina para um senador que é pré-candidato à Presidência da República? Por outro lado, votar a favor dá ao presidente Lula um dos seus carros chefe para a campanha. A situação do filho 01 não é simples. Se ficar, o Lula pega. Se correr, o Lula come.
Muita água vai rolar nestes 45 dias do regime de urgência. Em primeiro lugar, veremos uma campanha insana e uníssona na imprensa contra o fim da escala 6×1. Como jornais, emissoras de rádio e televisão, âncoras e comentaristas econômicos e políticos não estão disputando votos, eles serão os pontas-de-lança na missão de desqualificar a redução da jornada. E farão isso usando a velha estratégia de espalhar o medo com verniz institucional, se apoiando em estudos e números fabricados pela CNI e outras entidades do empresariado e da Faria Lima. Deverão martelar a ideia de que o PL de Lula é eleitoreiro e açodado, que não existe “varinha mágica” para reduzir a jornada, que o Brasil perderá competitividade, que os custos de produção irão subir e que a conta final será paga pelo consumidor.
Mais que uma grita de quem não quer dividir seus bilhões, a operação que já está em curso visa dividir a opinião pública, hoje amplamente favorável à redução da jornada. Isso é bom para os empresários e, claro, excelente para Flávio Bolsonaro. Tentam ganhar nas duas pontas e levar o embate pela Presidência para um apertado segundo turno.
Outro caminho que eles têm à mão é minimizar o protagonismo do presidente Lula como o “pai do fim da escala 6×1” e, com isso, o provável impacto eleitoral a favor do petista. Acelerar a tramitação da PEC, colocando penduricalhos que possam descaracterizar a proposta inicial e jogando a redução da jornada para um futuro mais distante, é uma opção que o Legislativo pode levar adiante. Seria o “Congresso Inimigo do Povo”, mas com cara de “Congresso Amigo da Onça”.
Em todo caso, cedo ou tarde, a hora do voto do fim da 6×1 vai chegar. PL e Flávio Bolsonaro têm algumas opções. Uma delas seria a aprovação em bloco, por voto simbólico, uma forma de diluir a escolha de Sofia do filho 01. Na prática e diante dos microfones, votaria a favor, mas manteria o argumento de que é preciso agir com responsabilidade econômica. É o que falaria para o povo e os eleitores em geral. Nos bastidores, tentaria convencer empresários e Faria Lima de que não haveria outra escolha sem colocar em risco sua viabilidade eleitoral. Certamente, faria promessas. Se eleito, poderia atuar para mudar o jogo de novo (se for a PEC, ficaria mais difícil, claro).
Mas ele ainda teria outros caminhos para se esquivar sem precisar de uma nova dancinha que quase faz lembrar aqueles bonecos birutas de borracharias e postos de gasolina. Ele pode voltar dez anos no tempo e repetir a estratégia de passar mal e se ausentar da votação, como fez no debate da Band para a Prefeitura do Rio de Janeiro, em 2016. Ou, ainda, tirar uma licença para visitar o irmão Eduardo e o amigo Ramagem nos Estados Unidos, além de levar mais alguns documentos confidenciais da República para a Casa Branca.