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Eyevine/The Economist

Uma reportagem publicada nesta quinta-feira (7) pela revista The Economist revelou detalhes de um suposto plano secreto da Rússia para ampliar o apoio militar ao Irã durante a guerra recente contra Estados Unidos e Israel. Segundo a publicação, Moscou teria oferecido drones avançados, treinamento militar e tecnologia de guerra eletrônica ao regime iraniano para ajudar Teerã a atacar tropas americanas no Golfo Pérsico e em outras áreas estratégicas do Oriente Médio.

O material, segundo a revista, foi obtido de uma “fonte confiável” e consistiria em uma proposta confidencial de dez páginas preparada pelo GRU, o serviço de inteligência militar das Forças Armadas russas. O documento detalha um plano para fornecimento de 5 mil drones de fibra óptica de curto alcance, drones guiados por satélite equipados com tecnologia Starlink e treinamento operacional voltado especificamente para ações militares contra forças americanas e aliadas.

A reportagem afirma que o texto provavelmente foi produzido durante as primeiras semanas da guerra, quando autoridades russas e iranianas acreditavam existir risco real de uma invasão terrestre americana ao território iraniano, incluindo possíveis operações para tomar a Ilha de Kharg, principal terminal petrolífero do país, ou controlar o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo mundial.

Embora a Economist afirme não possuir provas definitivas de que os drones tenham sido efetivamente enviados ao Irã ou que o treinamento tenha começado, especialistas e fontes de inteligência consultados pela revista consideram o plano plausível e coerente com o aprofundamento da cooperação militar entre Moscou e Teerã desde a guerra da Ucrânia.

Drones de fibra óptica mudaram a guerra na Ucrânia

O ponto mais sensível do documento revelado pela revista envolve os drones de fibra óptica utilizados pela Rússia na Ucrânia. Diferentemente de drones convencionais controlados por rádio, esses equipamentos operam ligados fisicamente ao operador por um fino cabo de fibra óptica, o que impede bloqueios eletrônicos e dificulta interceptações.

Segundo a Economist, esse tipo de tecnologia transformou o campo de batalha ucraniano ao criar extensas “zonas cinzentas” onde veículos, soldados e posições inimigas passaram a ser atacados continuamente sem possibilidade eficiente de defesa eletrônica.

Os drones conseguem transmitir imagens de alta qualidade em tempo real, realizar ataques de precisão a distâncias superiores a 40 quilômetros e operar sem emitir sinais de rádio detectáveis. Isso impede que o inimigo localize facilmente o operador ou neutralize o equipamento por guerra eletrônica.

A reportagem afirma que o plano russo previa o envio desses drones ao Irã justamente para ampliar a capacidade de ataques assimétricos contra tropas americanas em áreas marítimas e instalações estratégicas no Golfo. O documento do GRU destaca que embarcações de desembarque dos EUA seriam especialmente vulneráveis devido à baixa velocidade e à dificuldade de defesa contra enxames de drones lançados simultaneamente.

Um dos diagramas incluídos no relatório mostra operadores iranianos treinados pela Rússia atacando uma flotilha americana com grupos de cinco ou seis drones lançados a partir de posições ocultas entre 15 e 30 quilômetros de distância.

Tecnologia Starlink também aparece no plano

Outro trecho da proposta descreve o fornecimento de drones guiados por satélite equipados com terminais Starlink. Segundo a Economist, a Rússia já vinha utilizando esse tipo de equipamento na Ucrânia para localizar alvos e escapar das defesas aéreas ucranianas.

A reportagem destaca que esses drones se mostraram particularmente eficazes em operações contra logística militar, depósitos e movimentações de tropas muito além das linhas de frente. O plano russo previa adaptar o uso desses equipamentos ao Oriente Médio, explorando o fato de que as restrições impostas pela Starlink às forças russas na Ucrânia não estariam presentes na região.

O documento admite, porém, que o acesso à rede poderia eventualmente ser bloqueado caso os Estados Unidos identificassem o uso da tecnologia em operações iranianas. Ainda assim, o texto afirma que os drones poderiam causar “desordem” significativa às forças americanas antes de eventual desativação do sistema.

Rússia teria planejado treinamento internacional de operadores

A terceira etapa do plano envolve treinamento militar e recrutamento de operadores para as missões com drones. Segundo a reportagem, o GRU propôs recrutar pilotos entre cerca de 10 mil estudantes iranianos matriculados em universidades russas.

O documento também cita a possibilidade de utilização de tajiques, população da Ásia Central com afinidade linguística com o persa, e integrantes da minoria alauíta síria ligada ao regime deposto de Bashar al-Assad. Todos passariam por triagem de lealdade e verificação contra “extremismo religioso”, segundo o texto.

Analistas ouvidos pela revista afirmam que a proposta demonstra um nível de planejamento operacional muito mais sofisticado do que simples cooperação diplomática entre Rússia e Irã. O documento sugere preocupação real de Moscou com uma possível invasão americana ao território iraniano e mostra que o Kremlin avaliava maneiras de tornar qualquer operação dos EUA extremamente custosa militarmente.

Rússia tenta desgastar EUA sem entrar diretamente na guerra

A reportagem da Economist sustenta que o Kremlin buscava ajudar o Irã sem se envolver diretamente em uma guerra aberta contra os Estados Unidos. O próprio documento do GRU reconhece que Moscou estaria assumindo “riscos políticos e militares” ao ampliar seu apoio ao Irã, especialmente enquanto continua envolvida na guerra da Ucrânia.

Ao mesmo tempo, a proposta afirma que uma assistência limitada e “negável” poderia complicar significativamente qualquer operação militar americana sem arrastar formalmente a Rússia para o conflito.

A revelação reforça avaliações de governos ocidentais de que Rússia e Irã passaram a atuar como parceiros estratégicos cada vez mais integrados. Desde 2022, Teerã fornece drones e armamentos para Moscou, enquanto o Kremlin amplia cooperação tecnológica, diplomática e de inteligência com o regime iraniano.

Nos bastidores da OTAN e da União Europeia, autoridades consideram que a transferência de drones avançados e treinamento militar ao Irã representa um dos movimentos mais delicados da disputa indireta entre Rússia e Estados Unidos desde o início da guerra da Ucrânia.

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