
O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, voltou a provocar reação internacional ao afirmar, na segunda-feira (11), que considera “seriamente” transformar a Venezuela no “51º estado” norte-americano. A declaração, divulgada inicialmente pela Fox News e repercutida por agências internacionais e veículos europeus, reacendeu debates sobre expansionismo dos Estados Unidos, controle energético e pressão geopolítica sobre governos latino-americanos em um momento de reorganização das relações entre Washington e Caracas.
Segundo o correspondente John Roberts, da Fox News, Trump afirmou que “a Venezuela ama Trump” e citou diretamente as reservas petrolíferas venezuelanas como um dos fatores centrais para a aproximação. O republicano também voltou a elogiar a produção de petróleo no país sul-americano e disse que “a Venezuela está sendo muito bem administrada”, em referência ao governo interino de Delcy Rodríguez, instalado após a captura de Nicolás Maduro pelas forças norte-americanas em janeiro deste ano.
A fala ocorre em meio a um contexto internacional sensível. Desde a operação militar conduzida pelos Estados Unidos no início de 2026, Washington ampliou presença diplomática, econômica e militar sobre a Venezuela. Agências internacionais como Reuters e Associated Press relataram, nos últimos meses, a intensificação das negociações envolvendo empresas norte-americanas de petróleo, mineração e infraestrutura energética interessadas na reconstrução da indústria venezuelana.
Reação venezuelana
Horas após a declaração de Trump, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, respondeu publicamente durante agenda em Haia, onde participa das discussões no Tribunal Internacional de Justiça sobre a disputa territorial entre Venezuela e Guiana pelo território de Essequibo, região rica em petróleo e minerais estratégicos.
Rodríguez rejeitou qualquer possibilidade de integração política aos Estados Unidos e afirmou que a soberania venezuelana “não está em negociação”. “Isso não está planejado. Nunca seria planejado, porque se há uma coisa que nós venezuelanos temos, é o amor pelo nosso processo de independência”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Continuaremos defendendo a integridade, a soberania, a independência, a nossa história, uma história que é a glória dos homens e mulheres que deram as suas vidas para que pudéssemos nos tornar não uma colônia, mas um país livre”.
Apesar do tom diplomático, a resposta expõe um equilíbrio delicado dentro do novo cenário político venezuelano. Desde a saída de Maduro, o governo interino tenta estabilizar a economia e ampliar investimentos estrangeiros sem transmitir a imagem de submissão política aos Estados Unidos. Em diferentes entrevistas recentes, Rodríguez tem insistido que a relação com Washington deve ocorrer “entre países soberanos” e baseada em cooperação diplomática, especialmente em temas ligados à energia e comércio internacional.
Petróleo e influência regional
A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, além de importantes reservas de gás natural e minerais estratégicos. O país voltou ao centro da política externa norte-americana em um contexto de instabilidade global nos mercados de energia, agravado pelas tensões envolvendo Irã, Rússia e rotas marítimas internacionais.
Na semana passada, a Reuters revelou que Trump se reuniu com executivos da Chevron e da ExxonMobil para discutir diretamente a Venezuela e os interesses das empresas norte-americanas no país. A movimentação ocorre em paralelo à flexibilização parcial de sanções econômicas e à retomada gradual da presença de companhias dos EUA no setor petrolífero venezuelano.
Em janeiro, Trump afirmou ao New York Times que os Estados Unidos permaneceriam supervisionando a Venezuela “por muito mais tempo” e declarou que Washington iria “usar petróleo” venezuelano e “reconstruir o país de forma lucrativa”. As falas provocaram críticas de especialistas em direito internacional, que passaram a associar a política externa norte-americana a uma releitura contemporânea da Doutrina Monroe, historicamente utilizada pelos EUA para justificar influência direta sobre países latino-americanos.
Relatórios citados pela Reuters e pelo The Guardian apontam que a ofensiva norte-americana sobre a Venezuela gerou preocupações dentro da ONU, além de críticas de governos como China, Rússia e Colômbia. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, chegou a classificar a operação militar conduzida pelos EUA como um “precedente perigoso” para a ordem internacional.
Retórica expansionista dos EUA
A declaração sobre a Venezuela não é um episódio isolado. Desde o retorno à Casa Branca, Trump passou a utilizar com frequência uma retórica expansionista envolvendo territórios estratégicos para os interesses econômicos e militares norte-americanos.
O Canadá foi um dos primeiros alvos simbólicos do discurso. Em maio do ano passado, Trump sugeriu que os canadenses poderiam integrar gratuitamente o sistema antimíssil “Domo de Ouro” caso aceitassem se tornar o “51º estado” dos Estados Unidos. Mais recentemente, o republicano também pressionou aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em defesa de uma eventual anexação da Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca considerado estratégico para segurança militar no Ártico.
Cuba também voltou ao centro das declarações da Casa Branca. Nesta terça-feira (12), Trump afirmou que o governo cubano estaria “buscando ajuda” dos Estados Unidos, em meio ao aprofundamento da crise econômica na ilha e ao endurecimento das sanções norte-americanas. Analistas internacionais avaliam que o discurso do presidente norte-americano busca reforçar a imagem de domínio estratégico dos EUA sobre o hemisfério ocidental em um cenário de crescente disputa geopolítica global.