Lula
Wallison Breno/PR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu na tarde da segunda-feira (11), no Palácio do Planalto, em Brasília (DF), a ex-presidente do Chile Michelle Bachelet e voltou a defender publicamente sua candidatura ao comando da Organização das Nações Unidas (ONU). Após a reunião, Lula afirmou que a trajetória política e diplomática da chilena “a credencia para ser a primeira mulher latino-americana a liderar a ONU”, em um momento de intensificação das articulações internacionais para a sucessão de António Guterres.

O encontro ocorreu em meio ao avanço das negociações diplomáticas sobre o futuro comando da organização, cujo atual mandato termina em 2026. Bachelet é uma das candidaturas mais conhecidas dentro do processo e vem sendo apoiada por governos progressistas da América Latina, especialmente Brasil e México. A reunião em Brasília foi interpretada por diplomatas brasileiros como um gesto político de fortalecimento público da candidatura da ex-presidente chilena em um cenário internacional ainda indefinido.

Em publicação nas redes sociais após o encontro, Lula afirmou que conversou com Bachelet sobre “o fortalecimento do multilateralismo, da democracia e da cooperação internacional”. O presidente brasileiro também destacou a experiência da chilena como chefe de Estado e dirigente internacional. “Sua experiência a acredita para ser a primeira mulher latino-americana a liderar a ONU”, escreveu. A declaração foi repercutida por veículos chilenos como La Tercera e Emol, que destacaram o peso do apoio brasileiro na disputa diplomática.

Lula e o distanciamento de Kast

O encontro acontece em um momento de tensão política entre o novo governo chileno e setores ligados à antiga coalizão de centro-esquerda do país. Desde que assumiu a presidência do Chile, José Antonio Kast retirou oficialmente o apoio do governo chileno à candidatura de Bachelet e passou a adotar uma política externa mais alinhada a governos conservadores da América Latina e dos Estados Unidos.

Segundo a imprensa chilena, interlocutores próximos a Kast avaliam que a candidatura da ex-presidente está “fortemente associada” aos governos progressistas da região, especialmente ao Brasil de Lula e ao México de Claudia Sheinbaum. O governo chileno anunciou, em março, que o país não apoiará oficialmente nenhum nome na disputa pela ONU, movimento interpretado por diplomatas como um recuo calculado para evitar o fortalecimento político internacional de Bachelet.

A decisão provocou reação dentro do Chile. Analistas ouvidos por veículos como La Tercera e El País Chile afirmaram que o gesto rompe uma tradição diplomática chilena de apoiar candidaturas nacionais em organismos multilaterais. Ex-integrantes da política externa do país classificaram a postura do governo Kast como uma perda de oportunidade para ampliar a influência chilena no cenário internacional.

Experiência internacional

Michelle Bachelet construiu uma das trajetórias internacionais mais conhecidas entre os nomes cotados para o cargo. Além de ter presidido o Chile em dois mandatos, comandou a ONU Mulheres entre 2010 e 2013 e atuou como alta comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos entre 2018 e 2022.

Sua passagem pela ONU consolidou sua projeção internacional, mas também gerou resistências políticas. Durante o período à frente do Alto Comissariado de Direitos Humanos, Bachelet enfrentou pressões envolvendo relatórios sobre China, Venezuela, Nicarágua e conflitos internacionais. Em diferentes momentos, recebeu críticas tanto de governos conservadores quanto de setores da esquerda latino-americana.

Apesar disso, diplomatas avaliam que a ex-presidente chilena reúne credenciais relevantes em um cenário em que cresce a pressão internacional por maior representatividade regional e de gênero dentro da ONU. Caso seja escolhida, Bachelet se tornaria a primeira mulher latino-americana a comandar a organização desde sua fundação, em 1945.

Disputa geopolítica

A sucessão de António Guterres ocorre em meio a um cenário internacional marcado por guerras regionais, disputa entre Estados Unidos e China, reorganização econômica global e crise de credibilidade de organismos multilaterais. O debate sobre a necessidade de reformar a ONU voltou a ganhar força nos últimos anos, especialmente entre países do Sul Global.

Nos bastidores diplomáticos, interlocutores brasileiros avaliam que o apoio público de Lula à candidatura de Bachelet também faz parte de uma estratégia mais ampla de reposicionamento internacional do Brasil. O governo brasileiro busca ampliar protagonismo nas discussões multilaterais e fortalecer alianças regionais em meio às disputas por espaço político dentro do sistema internacional.

Ao mesmo tempo, a candidatura da ex-presidente chilena passou a simbolizar também uma disputa ideológica regional. Enquanto governos progressistas defendem sua experiência em direitos humanos e articulação diplomática, setores conservadores avaliam que sua eventual eleição poderia ampliar divisões políticas dentro da própria ONU em temas ligados a migração, direitos reprodutivos e conflitos internacionais.

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