
A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou nesta terça-feira (12) que novos casos de hantavírus podem surgir nas próximas semanas após o surto registrado a bordo do navio de expedição MV Hondius, que passou pela América do Sul e pelo Atlântico Sul antes de atracar nas Ilhas Canárias. O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou que, apesar de não haver sinais de transmissão descontrolada, os países precisam se preparar para um possível aumento de diagnósticos devido ao longo período de incubação do vírus.
O surto já provocou pelo menos três mortes e mais de dez casos confirmados ou suspeitos relacionados ao vírus Andes, uma variante rara de hantavírus capaz de apresentar transmissão entre humanos em circunstâncias específicas. Autoridades sanitárias acompanham passageiros e tripulantes em países como Reino Unido, França, Espanha, Estados Unidos, Holanda, Suíça e África do Sul.
Segundo a OMS, o MV Hondius saiu de Ushuaia, no sul da Argentina, em abril, passando por regiões próximas à Patagônia e ao Atlântico Sul. Investigações preliminares apontam que alguns passageiros participaram de atividades de observação de aves perto de áreas com presença de roedores, principal vetor do hantavírus.
O que é o hantavírus
Os hantavírus são um grupo de vírus transmitidos principalmente por roedores silvestres através da urina, saliva e fezes dos animais. Em humanos, podem provocar quadros graves conhecidos como síndrome cardiopulmonar por hantavírus, caracterizada por febre alta, dificuldade respiratória, falência pulmonar e complicações cardiovasculares.
A variante identificada no surto do MV Hondius é o chamado vírus Andes, encontrado principalmente em países da América do Sul como Argentina e Chile. Diferentemente de outros hantavírus, essa cepa possui registros raros de transmissão entre pessoas após contato muito próximo e prolongado.
Especialistas da OMS e do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) afirmam que o risco de transmissão em larga escala permanece baixo. Ainda assim, o longo período de incubação, que pode variar entre duas e seis semanas, ampliou o monitoramento internacional sobre passageiros que já retornaram aos seus países de origem.
Durante coletiva de imprensa realizada na semana passada, Tedros afirmou que “não há sinais de um grande surto internacional”, mas declarou que “é possível que novos casos sejam identificados nas próximas semanas”. O diretor-geral também tentou conter comparações com a pandemia de Covid-19. “Isto não é outra Covid”, afirmou.
Operação internacional e quarentenas
A resposta internacional ao surto mobilizou autoridades sanitárias de pelo menos 12 países. Segundo a OMS, passageiros foram repatriados sob protocolos rígidos de biossegurança após negociações diplomáticas envolvendo Espanha, Holanda e Cabo Verde. O navio chegou a ter desembarque recusado inicialmente por alguns territórios devido ao receio de disseminação do vírus.
Na Espanha, tendas médicas e equipes usando equipamentos de proteção individual foram mobilizadas para retirar passageiros do navio nas Ilhas Canárias. Nos Estados Unidos, parte dos passageiros foi encaminhada para centros de quarentena em Nebraska e hospitais especializados em Atlanta. O Reino Unido reutilizou estruturas hospitalares utilizadas durante a pandemia de Covid-19 para isolar britânicos que estavam a bordo.
A França monitora ao menos 22 pessoas consideradas contatos próximos de passageiros infectados. Na Holanda, funcionários de um hospital entraram em isolamento após manusearem amostras biológicas sem seguir integralmente os protocolos de proteção.
A OMS informou que distribuiu milhares de testes diagnósticos para países envolvidos na operação e mantém coordenação diária com agências nacionais de saúde pública.
Comparações com a Covid preocupam autoridades
Apesar das tentativas da OMS de reduzir alarmismo, o caso reacendeu discussões globais sobre preparação sanitária internacional após a pandemia de Covid-19. O fato de o vírus ter sido identificado em um cruzeiro internacional envolvendo passageiros de dezenas de nacionalidades ampliou a atenção da imprensa e das autoridades de saúde.
Veículos como The Guardian, Sky News e BBC destacaram que o episódio expôs novamente dificuldades de coordenação internacional em situações envolvendo surtos em viagens transnacionais. O caso também ocorre em um momento de tensão entre governos e organismos multilaterais de saúde após os cortes promovidos pelo governo Donald Trump em programas internacionais do CDC e o processo de afastamento formal dos Estados Unidos da OMS iniciado em 2025.
Mesmo assim, especialistas ressaltam diferenças importantes em relação à Covid-19. Segundo a OMS, o hantavírus não possui transmissão aérea sustentada e depende de contato muito mais próximo para eventual disseminação entre humanos. Além disso, a quantidade de casos segue limitada e rastreável até o momento.
Ainda assim, autoridades internacionais afirmam que os próximos dias serão decisivos para determinar se o surto permanecerá restrito ao grupo original de passageiros ou se haverá novos registros secundários em outros países.