
O premiê do Reino Unido, Keir Starmer, enfrenta sua mais grave crise política desde que chegou ao poder em julho de 2024 após a renúncia do secretário de Saúde britânico, Wes Streeting, um dos nomes mais influentes do Partido Trabalhista e apontado há meses como possível sucessor do premiê. A saída do ministro nesta quinta-feira (14) aprofundou a pressão interna pela substituição de Starmer e acelerou as discussões sobre uma eventual disputa de liderança dentro do Labour menos de dois anos após a vitória histórica do partido nas eleições gerais britânicas.
A renúncia ocorreu após dias de especulação na imprensa britânica. Jornais como The Times, The Guardian e Financial Times já informavam desde o início da semana que Streeting vinha articulando uma ruptura política com Starmer e discutindo internamente cenários para sucessão no comando do governo. Em carta enviada ao premiê, o agora ex-ministro afirmou que perdeu confiança na capacidade de liderança do chefe de governo e disse que permanecer no gabinete seria “desonroso e sem princípios”.
“Como você sabe pela nossa conversa no início desta semana, tendo perdido a confiança em sua liderança, concluí que seria desonroso e sem princípios continuar”, escreveu Streeting, segundo trechos divulgados pela imprensa britânica.
A saída provocou forte impacto político porque Streeting era considerado um dos principais pilares do governo trabalhista. Desde que assumiu o Ministério da Saúde, ele vinha liderando uma ampla reforma do NHS, o sistema público britânico de saúde, e era tratado como uma das figuras mais populares do gabinete entre setores moderados e empresariais do Labour.
Quem é o premiê Keir Starmer
Keir Starmer chegou ao poder em julho de 2024 após liderar o Partido Trabalhista em uma vitória histórica sobre os conservadores, encerrando 14 anos consecutivos de governos do Partido Conservador no Reino Unido. Ex-promotor público e advogado especializado em direitos humanos, Starmer assumiu o comando do Labour em 2020 prometendo reconstruir a legenda após a derrota eleitoral sofrida sob Jeremy Corbyn.
Ao longo da campanha de 2024, Starmer tentou reposicionar o Partido Trabalhista ao centro político britânico, abandonando parte da agenda mais à esquerda do período Corbyn e defendendo responsabilidade fiscal, controle migratório mais rígido e aproximação com o setor empresarial. A estratégia ajudou o Labour a conquistar ampla maioria parlamentar, mas também provocou tensões internas entre alas progressistas e centristas do partido.
Nos primeiros meses de governo, Starmer enfrentou pressão para lidar com inflação persistente, desaceleração econômica, crise habitacional e dificuldades no NHS. Seu governo também passou a sofrer desgaste após medidas de contenção fiscal e cortes em programas sociais, frustrando parte do eleitorado trabalhista que esperava ruptura mais forte com as políticas econômicas dos conservadores.
Segundo pesquisas publicadas pelo YouGov e pelo Ipsos nas últimas semanas, a aprovação pessoal de Starmer caiu significativamente desde o início do mandato, especialmente entre jovens e eleitores urbanos.
Derrota eleitoral acelerou crise
A crise interna do governo se agravou após a derrota considerada histórica do Labour nas eleições regionais realizadas na semana passada. O partido perdeu centenas de cadeiras em governos locais e viu crescimento expressivo do Nigel Farage e do Reform UK, legenda nacionalista anti-imigração associada ao legado do Brexit.
Analistas políticos britânicos passaram a tratar o resultado como um referendo informal sobre o governo Starmer. Em várias regiões da Inglaterra, o Reform UK ultrapassou tanto conservadores quanto trabalhistas em número de votos, consolidando-se como nova força relevante da direita britânica.
Nos bastidores do Labour, a avaliação de parlamentares era de que a derrota expôs perda acelerada de apoio popular e incapacidade do governo de apresentar uma agenda econômica capaz de melhorar rapidamente o custo de vida da população.
Segundo o The Times, dezenas de deputados trabalhistas passaram a discutir reservadamente a abertura de um processo interno para substituir Starmer ainda antes da renúncia de Streeting. O jornal afirma que pelo menos 80 parlamentares participaram de conversas sobre alternativas para liderança do partido.
Em sua carta de saída, Streeting relacionou diretamente sua decisão ao avanço da extrema direita e ao resultado das eleições regionais. “Os resultados da semana passada foram sem precedentes — tanto pela dimensão da derrota quanto pelas consequências desse fracasso”, escreveu o ex-ministro. “Pela primeira vez na história do nosso país, nacionalistas estão no poder em todos os cantos do Reino Unido.”
Governo enfrenta debandada
A saída de Streeting ampliou a percepção de fragilidade política do governo trabalhista. Nas últimas semanas, outros integrantes do gabinete também deixaram seus cargos ou passaram a criticar internamente a condução do governo. Segundo veículos como The Guardian e Sky News, ministros ligados às áreas sociais vinham demonstrando preocupação crescente com cortes orçamentários e perda de apoio popular do Labour.
Embora Starmer ainda tente evitar uma disputa formal pela liderança do partido, aliados do premiê reconhecem reservadamente que a situação política se deteriorou rapidamente após as eleições regionais. O governo também enfrenta desgaste provocado pelo aumento do custo de vida, críticas ao NHS e dificuldades econômicas persistentes no Reino Unido.
Parte da crise interna está ligada justamente ao crescimento do Reform UK, que vem atraindo eleitores descontentes tanto do Partido Conservador quanto do próprio Labour. Nigel Farage passou a explorar o desgaste do governo trabalhista com forte discurso anti-imigração, nacionalista e contrário ao establishment político britânico.
Debate sucessório já começou
A renúncia de Streeting acelerou as movimentações sobre quem poderia substituir Starmer caso a crise continue avançando. Além do próprio ex-ministro da Saúde, nomes como Angela Rayner, Andy Burnham e Ed Miliband passaram a ser citados pela imprensa britânica como possíveis candidatos a liderar o Labour em caso de queda do premiê.
Segundo o Financial Times, parlamentares trabalhistas já discutem informalmente um possível processo de transição para evitar que o partido entre em colapso político antes das próximas eleições gerais.
Apesar da pressão crescente, Starmer afirmou nesta quinta-feira que não pretende renunciar. Em reunião com ministros, o premiê declarou que o governo “continuará focado em entregar resultados” e negou que exista processo formal para removê-lo da liderança trabalhista.