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Ederson Nunes/CMPA

Uma sessão da Câmara Municipal de Porto Alegre terminou em confusão e provocou repercussão nacional na quarta-feira (13) após o vereador Mauro Pinheiro (PP) retirar o microfone da vereadora Juliana dos Anjos de Souza (PT) enquanto ela discursava no plenário da Casa. O episódio ocorreu no momento em que a parlamentar citava os áudios revelados pelo Intercept Brasil envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro.

A cena foi registrada pelas câmeras da TV Câmara e rapidamente viralizou nas redes sociais. Naquele momento, os vereadores discutiam a Lei de Uso e Ocupação do Solo de Porto Alegre, mas Juliana passou a comentar o impacto político das revelações envolvendo Flávio Bolsonaro e Vorcaro. Durante a fala, ela mencionou que uma parlamentar da direita estaria “nervosa” após a divulgação dos áudios do caso Banco Master. Foi então que Mauro Pinheiro interrompeu o discurso e retirou o microfone da vereadora diante do plenário.

Surpresa com a atitude, Juliana reagiu imediatamente. “Opa, opa, o que é isso?”, disse após o vereador arrancar o equipamento. O tumulto se espalhou rapidamente pelo plenário e obrigou o presidente da Câmara, Moisés Barboza (PSDB), a suspender a sessão por dois minutos para conter os ânimos.

O episódio ocorreu horas depois da publicação da investigação do Intercept Brasil que revelou mensagens privadas, áudios e documentos apontando negociações milionárias entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Segundo a reportagem, Vorcaro teria prometido US$ 24 milhões (cerca de R$ 134 milhões) para bancar a produção do longa, com parte dos recursos já transferidos antes da prisão do banqueiro e da liquidação do Banco Master.

Vereadora fala em violência política de gênero

Após o episódio, Juliana dos Anjos anunciou que irá representar contra Mauro Pinheiro na Comissão de Ética da Câmara Municipal por quebra de decoro parlamentar. Em nota divulgada à imprensa, a vereadora afirmou que a atitude do colega representou “violência política de gênero”, “ataque à democracia” e tentativa de cassação da palavra parlamentar.

“O que aconteceu foi mais um episódio de violência política de gênero que vivi ao longo do processo de votação do Plano Diretor, mas em um nível muito mais exacerbado e grave. Além da violência de gênero, cassar a fala de uma parlamentar no uso de suas prerrogativas é um ataque à liberdade de expressão, ao parlamento e à própria democracia”, afirmou a parlamentar petista.

Juliana também declarou que o caso representa “a expressão da política de ódio que a extrema direita tem promovido no país” e afirmou que pretende tomar “todas as medidas cabíveis” para responsabilizar o vereador do PP.

A repercussão ultrapassou rapidamente o Rio Grande do Sul. Parlamentares de esquerda, movimentos feministas e lideranças políticas passaram a compartilhar o vídeo nas redes sociais denunciando violência política contra mulheres. A ex-deputada federal Manuela d’Ávila classificou o episódio como “absurdo” e questionou “quem dá o direito de um vereador calar uma parlamentar”.

A Bancada do PT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul também enviou ofício oficial à Câmara de Porto Alegre cobrando providências e afirmando que o episódio “não é compatível com a convivência democrática”. O deputado estadual Miguel Rossetto afirmou que “não é possível conviver com esse padrão de violência praticado por parlamentar”.

Mauro Pinheiro nega motivação de gênero

Em nota oficial divulgada após a repercussão do caso, Mauro Pinheiro afirmou que o episódio “não teve qualquer relação com a condição de mulher da parlamentar envolvida” e alegou que sua atitude ocorreu por razões “estritamente regimentais”. Segundo o vereador do PP, Juliana estaria se afastando do tema discutido naquele momento da sessão.

“O contexto esteve estritamente ligado à condução dos trabalhos da sessão e à preservação da ordem regimental e da pauta em discussão”, afirmou o vereador. No texto, Pinheiro também declarou que “não se pode admitir distorções narrativas ou tentativas de transformar um episódio regimental em acusação de violência política de gênero sem a presença dos elementos que efetivamente a caracterizam”.

O parlamentar também ressaltou sua trajetória política e afirmou manter “absoluto respeito às mulheres na política”. Mauro Pinheiro está em seu quinto mandato como vereador de Porto Alegre e costuma adotar posicionamentos alinhados ao bolsonarismo. Nas redes sociais, se apresenta como defensor “da liberdade, da família e contra o comunismo”.

Nos últimos anos, Pinheiro participou de manifestações em defesa da anistia aos envolvidos nos atos golpistas de 8 de janeiro, protestos contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e mobilizações ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

Caso amplia tensão política em Porto Alegre

O episódio aprofundou a polarização dentro da Câmara Municipal de Porto Alegre, que já vinha registrando embates intensos entre bancadas de esquerda e direita desde o início da legislatura. A própria votação do Plano Diretor da cidade, citada por Juliana em sua nota, já havia sido marcada por acusações de intimidação, hostilidade e ataques verbais entre parlamentares.

A repercussão também ocorre em meio ao agravamento da crise política envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Desde a divulgação da investigação do Intercept, lideranças da oposição passaram a explorar o caso como símbolo de contradição dentro do discurso anticorrupção do bolsonarismo.

Em Porto Alegre, a tensão em torno do caso acabou transbordando para o plenário da Câmara Municipal e transformou uma sessão legislativa ordinária em mais um episódio do acirramento político nacional envolvendo o escândalo do Banco Master.

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