Frias
Câmara dos Deputados

O Supremo Tribunal Federal (STF) tenta, há quase dois meses, intimar o deputado federal Mário Frias (PL-SP) para que apresente explicações sobre o envio de emendas parlamentares a entidades ligadas à produtora do filme “Dark Horse”, cinebiografia inspirada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A investigação é conduzida pelo ministro Flávio Dino no âmbito da ADPF 854, ação que discute critérios de transparência e rastreabilidade de emendas parlamentares.

A ordem para que Frias prestasse esclarecimentos foi assinada por Dino em 21 de março. Desde então, oficiais de Justiça vêm tentando localizar o parlamentar para cumprir o mandado. Segundo registros enviados ao STF, houve ao menos três tentativas de intimação no gabinete do deputado na Câmara dos Deputados entre março e abril, mas assessores informaram que Frias estaria em São Paulo cumprindo agendas políticas e de campanha.

Diante das tentativas frustradas, Flávio Dino determinou que a Advocacia-Geral da Câmara dos Deputados fornecesse os endereços residenciais do parlamentar em Brasília e São Paulo para continuidade da intimação. Na decisão, o ministro afirmou que era necessário garantir o cumprimento das regras de transparência estabelecidas pelo Supremo para rastreamento de emendas parlamentares.

Investigação de Frias envolve produtora do filme “Dark Horse”

A investigação foi aberta após representação apresentada pela deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP). A parlamentar questiona o envio de recursos públicos para um conjunto de entidades e empresas ligadas à produtora cultural Karina Ferreira da Gama, apontada como uma das responsáveis pela produção de “Dark Horse”.

Segundo a petição encaminhada ao STF, Frias teria destinado ao menos R$ 2 milhões em emendas parlamentares para organizações ligadas ao grupo empresarial e cultural comandado por Karina Ferreira da Gama. Entre as entidades citadas estão a Academia Nacional de Cultura (ANC), o Instituto Conhecer Brasil (ICB), a Conhecer Brasil Assessoria e a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme sobre Bolsonaro.

Tabata sustenta que essas organizações funcionariam como um “conglomerado informal” com comando comum, estrutura compartilhada e até endereços coincidentes, o que, segundo ela, poderia dificultar a rastreabilidade dos recursos públicos.

“A tese que se submete à elevada consideração de vossa excelência é a de que esta simbiose institucional carece de maior transparência quanto à segregação de seus recursos”, afirmou a deputada na ação apresentada ao Supremo.

Segundo a representação, há indícios de que o excesso de recursos públicos destinados às entidades poderia acabar fornecendo “lastro indireto” ao financiamento da produção cinematográfica privada “Dark Horse”, descrita na petição como obra de “cunho ideológico”.

Outros deputados do PL também foram intimados

Além de Mário Frias, o ministro Flávio Dino determinou que os deputados Bia Kicis e Marcos Pollon apresentassem esclarecimentos sobre repasses realizados para entidades ligadas ao mesmo grupo empresarial.

Segundo os autos, a Academia Nacional de Cultura recebeu cerca de R$ 2,6 milhões em emendas parlamentares de deputados do PL, incluindo Frias, Kicis e Pollon. Parte dos recursos teria sido destinada a projetos audiovisuais desenvolvidos pela Go Up Entertainment.

Marcos Pollon confirmou ter reservado R$ 1 milhão para um projeto documental chamado “Heróis Nacionais – Filhos do Brasil que não se rendem”, desenvolvido pela produtora. Segundo ele, porém, a iniciativa não foi executada porque a entidade beneficiada não conseguiu cumprir exigências técnicas, e os recursos acabaram redirecionados ao Hospital de Amor de Barretos, em São Paulo.

Bia Kicis também admitiu ter indicado R$ 150 mil para a mesma série documental, mas afirmou que o valor nunca chegou a ser utilizado. A deputada classificou a representação de Tabata Amaral como “maldosa” e negou qualquer ligação entre suas emendas e o filme “Dark Horse”. “Tentar fundir projetos distintos apenas por envolverem a mesma produtora ou temas conservadores representa um erro jurídico e metodológico severo”, declarou Kicis.

Caso ganhou nova dimensão após revelações sobre Vorcaro

A investigação envolvendo “Dark Horse” passou a ganhar maior repercussão nacional nesta semana após o Intercept Brasil revelar mensagens privadas, áudios e documentos apontando negociações milionárias entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a produção cinematográfica.

Segundo a reportagem, Vorcaro teria prometido cerca de US$ 24 milhões (aproximadamente R$ 134 milhões) para bancar o longa-metragem, com ao menos US$ 10,6 milhões já transferidos antes da prisão do banqueiro e da liquidação do Banco Master. Áudios divulgados pelo Intercept mostram Flávio Bolsonaro cobrando aportes financeiros para o filme e mencionando preocupação com parcelas atrasadas da produção internacional.

“Embora você tenha nos dado liberdade para cobrar, sinto-me constrangido em fazê-lo. É que estamos em um momento crucial do filme e, com tantas parcelas pendentes, a tensão é grande”, afirma Flávio em um dos áudios revelados.

As revelações ampliaram a pressão política sobre o projeto cinematográfico e passaram a conectar a investigação das emendas parlamentares ao escândalo financeiro envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master.

Mário Frias diz que filme tem “100% de capital privado”

Em nota divulgada nesta quarta-feira (13), Mário Frias afirmou que “Dark Horse” possui “100% de capital privado” e negou que recursos públicos tenham sido utilizados na produção do filme. O deputado também declarou que Flávio Bolsonaro não possui participação societária na obra nem na produtora Go Up Entertainment.

“Dark Horse é uma superprodução em padrão hollywoodiano, financiada 100% por capital privado, com ator de primeira linha, além de diretor e roteirista de renome internacional”, afirmou o parlamentar.

Frias também defendeu o orçamento elevado da produção, afirmando que o filme possui padrão internacional superior ao de produções brasileiras recentes, incluindo “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2025.

Mesmo assim, o STF manteve a ordem para que o deputado apresente esclarecimentos formais sobre os repasses de emendas e sua relação com as entidades investigadas. Até esta quinta-feira (14), segundo registros do processo, a intimação ainda não havia sido concluída.

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