
A explosão ocorrida no bairro do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, deixou nesta quinta-feira (14) sua segunda vítima fatal e ampliou a pressão política e técnica sobre a Sabesp, privatizada pelo governo paulista em julho de 2024. Francisco Altino, de 62 anos, morador da região, morreu após permanecer internado desde a última segunda-feira (11), quando uma obra realizada pela companhia atingiu uma tubulação de gás e provocou a explosão que destruiu imóveis e deixou moradores feridos.
Francisco estava internado no Hospital Regional de Osasco e não resistiu aos ferimentos provocados pelo acidente. A primeira morte já havia sido registrada no próprio dia da explosão: um homem de 47 anos morreu no local após o incêndio atingir residências da Rua Doutor Benedito de Moraes Leme. A tragédia passou a ser tratada por autoridades estaduais e municipais como um dos acidentes urbanos mais graves registrados na capital paulista nos últimos anos envolvendo obras de infraestrutura subterrânea.
Segundo a Defesa Civil e o Corpo de Bombeiros, a explosão aconteceu após equipes terceirizadas da Sabesp atingirem uma tubulação de gás liquefeito de petróleo (GLP) da Comgás durante uma intervenção na rede de saneamento. Moradores relataram forte cheiro de gás horas antes da explosão e afirmam que chegaram a alertar trabalhadores e autoridades sobre o risco de acidente. Vídeos registrados por moradores mostram o momento em que o fogo toma conta da rua e atinge imóveis da região.
Mais de 100 imóveis vistoriados e 27 interditados
A dimensão dos danos levou a Prefeitura de São Paulo, a Defesa Civil e o Ministério Público de São Paulo a montarem uma força-tarefa para avaliar riscos estruturais e impactos sociais do acidente. Até a noite de quarta-feira (13), equipes técnicas haviam realizado 112 vistorias em imóveis da região. Segundo balanço oficial, 86 imóveis foram liberados para retorno dos moradores, mas outros 27 apresentaram danos considerados graves e permanecem interditados.
Parte das casas atingidas sofreu destruição parcial ou total. Em alguns imóveis, a Defesa Civil identificou comprometimento estrutural severo, exigindo demolições emergenciais para evitar risco de desabamento. A Prefeitura de São Paulo também passou a monitorar possíveis impactos na rede subterrânea da região, incluindo gás, água e drenagem.
O Ministério Público de São Paulo acompanha as perícias no local desde terça-feira (12). O subprocurador-geral de tutela coletiva, Fausto Junqueira de Paula, afirmou que o objetivo do órgão é “apurar a extensão dos danos, da violação de direitos e tentar recompor a situação das famílias atingidas”.
“Estamos primeiro zelando pela segurança das pessoas. Depois vem a questão do patrimônio, da vida pessoal, integridade física e dignidade dessas pessoas”, afirmou o representante do MPSP.
Sabesp ampliou indenização após pressão
Após críticas de moradores, parlamentares e entidades técnicas, Sabesp e Comgás anunciaram ampliação do auxílio emergencial pago às famílias atingidas. Inicialmente, as empresas haviam oferecido R$ 2 mil para moradores desalojados. Após a repercussão negativa do valor, a indenização emergencial foi elevada para R$ 5 mil por família.
Segundo a Prefeitura de São Paulo, ao menos 232 famílias foram cadastradas para receber apoio emergencial após o acidente. As empresas também afirmaram que estão custeando hospedagem em hotéis, assistência psicológica e acompanhamento médico para moradores atingidos.
Mesmo assim, associações de moradores e entidades sindicais afirmam que o valor anunciado está distante dos prejuízos reais provocados pela explosão. Muitas famílias perderam móveis, eletrodomésticos, veículos e parte da estrutura de suas casas.
Terceira morte ligada à Sabesp em menos de um ano
A nova morte no Jaguaré também reacendeu críticas sobre segurança operacional da Sabesp após a privatização da companhia, concluída pelo governo Tarcísio de Freitas em julho de 2024.
Este é o terceiro acidente fatal envolvendo operações da companhia em menos de um ano. Em setembro de 2025, uma mulher de 79 anos morreu em Mauá, na Grande São Paulo, após uma tubulação da Sabesp cair sobre sua casa durante uma obra de abastecimento. A vítima, Clelia dos Santos Pimentel, estava sentada na sala quando foi atingida pela estrutura.
Já em março deste ano, um reservatório de água da Sabesp em construção se rompeu em Mairiporã, também na Grande São Paulo. O acidente matou um trabalhador de 45 anos e deixou outras sete pessoas feridas.
A sequência de acidentes passou a alimentar críticas de sindicatos, entidades técnicas e parlamentares de oposição ao processo de privatização da companhia.
Sindicato fala em “desmonte técnico”
Nesta quinta-feira, o Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp) divulgou nota pública classificando a explosão do Jaguaré como resultado de um “desmonte técnico do saneamento” e cobrando revisão urgente das políticas de gestão da empresa após a privatização.
“A tragédia exige apuração rigorosa e revisão urgente de políticas de gestão que colocam em risco a segurança dos trabalhadores, a integridade das operações e o interesse público”, afirmou a entidade.
O sindicato também questionou a ampliação da terceirização de serviços operacionais e a redução de quadros técnicos especializados após a venda da companhia.
Na quarta-feira (13), o governador Tarcísio de Freitas visitou a região afetada e afirmou que o governo estadual acompanhará as investigações sobre as causas da explosão. O governador também declarou que as famílias atingidas “não ficarão desassistidas” e que os responsáveis serão identificados após conclusão das perícias.