
Documentos com informações pessoais e registros ligados a mortos, vítimas de violência e investigações policiais foram encontrados abandonados em condições precárias no antigo prédio do Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto, no Centro do Rio de Janeiro. A denúncia foi revelada nesta quinta-feira (14) pelo g1 após equipes de reportagem entrarem no imóvel desativado e encontrarem caixas, laudos, fotografias, prontuários e arquivos espalhados entre salas deterioradas e sacos de lixo.
O prédio histórico, localizado na região central da capital fluminense, foi sede do IML por décadas e abrigava exames cadavéricos, perícias criminais e identificação de vítimas. Embora parte das operações tenha sido transferida nos últimos anos para novas instalações da Polícia Civil, o imóvel antigo permanece abandonado e sem controle adequado de acesso.
Segundo a reportagem, documentos oficiais estavam espalhados em diferentes andares do prédio, muitos deles contendo nomes completos, fotografias de vítimas, registros de necropsia, laudos periciais e dados sigilosos relacionados a investigações criminais. Parte dos arquivos aparecia rasgada, molhada ou misturada a entulho e lixo acumulado no local.
Arquivos incluem laudos e fotos de vítimas
Entre os materiais encontrados havia documentos relacionados a homicídios, acidentes, desaparecimentos e identificação de corpos. A reportagem também registrou fotografias de vítimas e registros técnicos produzidos por peritos da Polícia Civil ao longo de diferentes décadas.
Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que o abandono do material pode configurar violação de normas de proteção de dados pessoais, quebra de cadeia de custódia documental e falhas graves de preservação de arquivos públicos. O caso também levanta preocupação sobre exposição de informações sensíveis de famílias e vítimas.
Segundo ex-servidores ligados ao instituto, parte do acervo armazenado no antigo prédio possui valor histórico e probatório, incluindo documentos relacionados a crimes de repercussão no Rio de Janeiro e registros produzidos ainda durante o período da ditadura militar.
O Instituto Médico-Legal Afrânio Peixoto foi criado no início do século XX e se tornou uma das principais estruturas de perícia forense do país. Durante décadas, o prédio concentrou exames necroscópicos, identificação humana e produção de provas técnicas utilizadas em investigações policiais e processos judiciais.
Polícia Civil anuncia apuração
Após a repercussão das imagens divulgadas pela imprensa, a Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro informou que abriu procedimento interno para apurar o abandono dos documentos e afirmou que equipes foram enviadas ao imóvel para recolher o material encontrado.
Em nota, a corporação declarou que parte dos arquivos já estaria em processo de digitalização e transferência para outras unidades, mas reconheceu falhas no armazenamento do acervo remanescente. A Polícia Civil também afirmou que irá avaliar eventual responsabilização administrativa sobre a situação do prédio.
O caso provocou reação de entidades ligadas à memória institucional e aos direitos humanos. Pesquisadores e especialistas em arquivos públicos passaram a cobrar medidas emergenciais para preservação do material e investigação sobre possíveis perdas documentais irreversíveis.
A exposição dos arquivos também reacendeu críticas sobre a deterioração da infraestrutura da perícia criminal no Rio de Janeiro e o abandono de imóveis históricos ligados à segurança pública estadual.
Prédio já vinha sendo alvo de denúncias
O antigo prédio do IML já vinha sendo alvo de denúncias de abandono nos últimos anos. Relatórios produzidos por sindicatos e entidades de peritos apontavam infiltrações, risco estrutural e ausência de controle adequado de preservação documental no imóvel.
Em 2024, o Ministério Público do Rio de Janeiro chegou a abrir procedimento preliminar para acompanhar a situação do prédio após denúncias de deterioração do acervo histórico ligado ao instituto. À época, especialistas alertavam para risco de perda definitiva de documentos considerados relevantes para pesquisas históricas, perícias antigas e memória institucional da segurança pública fluminense.
O imóvel também possui relevância histórica por ter abrigado necropsias e investigações de alguns dos casos criminais mais conhecidos do Rio de Janeiro ao longo do século XX.
Agora, após a divulgação das imagens de documentos abandonados em meio ao lixo e à deterioração do prédio, o caso passou a gerar pressão sobre o governo estadual e sobre a Polícia Civil para recuperação imediata do acervo e responsabilização pela situação do imóvel.