
O papa Leão XIV afirmou nesta terça-feira (14) que a democracia pode se tornar uma “tirania majoritária” quando perde sua base moral e se afasta do bem comum. A declaração foi feita em mensagem enviada à Assembleia Plenária da Pontifícia Academia de Ciências Sociais, no Vaticano, num momento em que o pontífice está no centro de uma crise diplomática e política com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O texto foi divulgado dois dias depois de Trump atacar o papa por suas críticas à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, e um dia após a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, sair em defesa de Leão XIV.
Democracia, poder e lei moral
Na mensagem, Papa Leão XIV sustenta que a democracia não se resume ao voto nem ao funcionamento formal das instituições. “Sem esse alicerce, corre o risco de se tornar uma tirania majoritária ou uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas”, escreveu. Em outro trecho, afirmou que “a legitimidade da autoridade não depende do acúmulo de poder econômico ou tecnológico, mas da sabedoria e da virtude com que é exercida”, vinculando o exercício do poder a critérios morais e ao serviço do bem comum.
O texto foi dirigido a líderes e acadêmicos reunidos no Vaticano para discutir o papel do poder político, a legitimidade democrática e a reorganização da ordem internacional. Entre os participantes está o brasileiro Virgilio Viana, ligado à agenda de desenvolvimento sustentável e justiça climática.
Na mesma mensagem, o papa amplia o diagnóstico ao associar a crise democrática a dinâmicas globais de concentração de poder. “A concentração do poder tecnológico, econômico e militar nas mãos de poucos ameaça tanto a participação democrática entre os povos quanto a concórdia internacional”, afirmou, ao indicar que o enfraquecimento das democracias não se limita a contextos nacionais, mas reflete transformações mais amplas na economia, na tecnologia e na geopolítica.
Crise política e reação internacional à fala de Trump
A fala do papa se insere em um embate que vinha se intensificando desde os posicionamentos do Vaticano contra a escalada militar no Irã. Segundo agências internacionais, Leão XIV já havia condenado a guerra e criticado o que chamou de “delírio de onipotência” por trás da ofensiva liderada por Estados Unidos e Israel. Trump reagiu publicamente, acusando o pontífice de fraqueza e afirmando que o papa não deveria interferir em temas políticos.
O episódio ganhou nova dimensão na segunda-feira (13), quando Giorgia Meloni classificou como “inaceitável” o ataque do presidente norte-americano ao papa. A manifestação teve peso político por partir de uma aliada de Trump na Europa e por ocorrer em um momento de alinhamento estratégico entre Itália e Estados Unidos.
A resposta do presidente veio nesta terça-feira (14). Em entrevista ao jornal Corriere della Sera, Donald Trump afirmou que ficou “chocado” com a posição da premiê italiana e disse que Meloni “não tem coragem”, relacionando a crítica também à postura do governo italiano diante da guerra contra o Irã.
Esse encadeamento amplia o alcance da mensagem do papa. O texto não se limita a uma reflexão institucional, mas se insere em um cenário de disputa política envolvendo guerra, liderança internacional e o papel das instituições. Ao afirmar que uma ordem global não pode ser sustentada apenas pelo equilíbrio de forças, o pontífice reforça a crítica a modelos de poder baseados em confronto e concentração.
Ao final da mensagem, Leão XIV afirma que “uma ordem internacional justa e estável não pode surgir do mero equilíbrio de forças ou de uma lógica puramente tecnocrática”, conectando o debate sobre democracia ao funcionamento do sistema internacional. Com isso, o Vaticano amplia sua atuação no debate global e insere a crise com Trump em um contexto mais amplo de questionamento sobre legitimidade, governança e uso do poder no cenário contemporâneo.